A Misericórdia assinalou aniversário com a inauguração da Creche do Cabeço, que já estava em funcionamento desde setembro de 2025

Vale de Cambra viveu, no passado dia 5 de maio, um daqueles dias que ficam na história de uma instituição e de uma comunidade. A Santa Casa da Misericórdia assinalou o seu 74.º aniversário com a inauguração oficial da Creche do Cabeço, um equipamento que já estava em funcionamento desde setembro de 2025, mas que ganhou agora o selo simbólico da celebração e do reconhecimento público.

Num ambiente de festa, emoção e sentido de missão, a cerimónia foi presidida pela secretária de Estado da Segurança Social, Filipa Lima, e contou com a bênção do bispo auxiliar do Porto, Roberto Mariz, num momento marcado por recolhimento e significado espiritual.

O provedor António Pina Marques deu voz à memória e ao percurso de mais de sete décadas de trabalho contínuo, sublinhando a evolução profunda da Santa Casa e o impacto crescente na comunidade.

“Foram 74 anos de dedicação, compromisso e serviço”, afirmou, lembrando que a instituição cresceu de forma expressiva nas últimas décadas, tanto em recursos humanos como no número de utentes, refletindo “uma resposta cada vez mais exigente às necessidades sociais do concelho”.

Mas o discurso foi também um retrato da realidade atual. Pina Marques não escondeu as dificuldades: “As listas de espera em algumas respostas são enormes e inconsoláveis”, deixando o alerta para áreas como a creche e os lares, “onde a procura ultrapassa largamente a capacidade instalada”.

Num tom de reconhecimento e gratidão, o provedor destacou ainda a importância da cooperação institucional e deixou palavras à União das Misericórdias Portuguesas, sublinhando “o papel de acompanhamento e apoio ao longo dos anos”.

Entre os momentos mais marcantes da cerimónia esteve a intervenção de Carlos Andrade, vice-presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas, que regressou simbolicamente a uma casa que conhece há quase duas décadas.

“Fui testemunha ao longo destes 19 anos de como a situação se foi alterando pouco a pouco”, recordou, sublinhando “a transformação profunda da instituição”.

Com um discurso emotivo e elogioso, destacou a liderança local como peça-chave dessa mudança: “A Misericórdia, numa situação de grande dificuldade, hoje transforma-se numa instituição pujante e capaz”.

Carlos Andrade deixou ainda uma reflexão sobre o próprio legado destas instituições centenárias, salientando que “as Misericórdias sempre souberam ler os problemas da comunidade e dar resposta às suas necessidades”.

Num registo quase filosófico, acrescentou: “Não são velhas, são contemporâneas”, sublinhando “a atualidade e a capacidade de reinvenção do setor social”.

Já a secretária de Estado da Segurança Social, Filipa Lima, destacou a importância da resposta agora inaugurada, sobretudo num tempo em que as famílias enfrentam os desafios da conciliação entre trabalho e vida familiar.

“As creches têm uma importância especial e são tendencialmente gratuitas”, afirmou, lembrando ainda “a abertura de milhares de novas vagas a nível nacional nos últimos anos”.

A governante lembrou a cooperação com o setor social, sublinhando que “este trabalho conjunto é essencial para garantir respostas mais próximas e eficazes”.

Por sua vez, o bispo auxiliar do Porto deixou uma mensagem centrada na missão social das instituições. Desde logo, “uma palavra de reconhecimento e gratidão”, destacando o percurso da Misericórdia e de todos os que contribuem para a sua missão.

Num dos momentos mais marcantes da sua intervenção, afirmou que “não há nenhuma obra que aconteça ao estalar dos dedos”, sendo preciso “o esforço, o tempo e o compromisso necessários até à concretização de projetos desta dimensão”. Roberto Mariz terminou reforçando que “o setor social não consegue fazer sem o Estado”, assim como “o Estado também precisa das instituições”.

A cerimónia ficou ainda marcada pela homenagem sentida à benemérita Albertina Gomes de Almeida, cujo gesto de generosidade — a doação do terreno — tornou possível a concretização da nova creche, perpetuando o seu nome na memória da instituição.

Entre música, bênçãos e encontros, Vale de Cambra celebrou muito mais do que uma inauguração. Celebrou um legado construído ao longo de 74 anos e lançou um olhar firme para o futuro, onde cada criança que ali entra representa não apenas o presente, mas também a promessa de um amanhã melhor.

Voz das Misericórdias, Paulo Sérgio Gonçalves