No âmbito do seu 40.º aniversário, a Santa Casa da Misericórdia da Amadora promoveu um debate em torno dos desafios relacionados com o envelhecimento da população

As quartas jornadas da Misericórdia da Amadora, ‘Da complexidade à integração’, versaram sobre temas como demências, cuidados em fim de vida e desafios ao modelo de respostas sociais da terceira idade. O debate inseriu-se num vasto programa de comemorações, a decorrer ao longo de 2026, no âmbito do 40º aniversário (1986-2026) da instituição.

Num agradecimento a todos os trabalhadores e parceiros que fazem parte desta história, o coordenador geral da Santa Casa, Manuel Girão, assumiu a importância destes momentos de pausa e reflexão, no meio da agitação das rotinas de trabalho. “É importante parar e ouvir gente tão boa. É um privilégio ter-vos na equipa e são vocês que fazem a diferença na vida das pessoas e que fazem de nós uma instituição de referência na Amadora”, reconheceu.

Na abertura, Manuel Caldas de Almeida, coordenador do Plano Nacional da Saúde para as Demências e provedor da Misericórdia de Mora, abordou desafios associados à demência no setor social, partindo da sua experiência como diretor clínico da unidade de cuidados continuados Bento XVI e coordenador do grupo de estudos sobre demência da União das Misericórdias Portuguesas (UMP).

“Vivemos mais anos, com múltiplas doenças crónicas, além da perda funcional associada ao envelhecimento, o que exige uma formação complexa das equipas”. Além disso, “enfrentamos problemas graves ao nível da escassez e competências de recursos humanos, que vão ter de lidar com demências e alterações comportamentais, enquanto são mal pagos”, resumiu, apontando como caminho a interligação de cuidados e afirmação pela qualidade e eficiência.

Alexandra Andrade, da Misericórdia da Amadora, refletiu sobre os limites da intervenção em contexto domiciliar e de centro de dia, alertando para os rácios insuficientes, dificuldade de articulação entre serviços e necessidade de formação das equipas. “Os momentos de cuidar devem ser momentos de relação. Com uma hora de visita estamos a apoiar ou a remediar?”, lançou para o ar. Na intervenção com estes utentes, uma das abordagens Amadora possíveis é a utilizada na Fundação AFID Diferença. “Terapias não farmacológicas, que valorizam a história e vontade de cada utente e que podem incluir desde fisioterapia e terapia ocupacional a atividades lúdicas”, exemplificou a psicóloga Teresa Reis.

No mesmo painel, o diretor de inovação da Misericórdia da Amadora, Adriano Fernandes, apresentou projetos europeus que evidenciam o impacto das alterações climáticas na pessoa com demência, com o “aumento da agitação, recusa alimentar/hídrica e tensão emocional das equipas”; e a necessidade de capacitação dos cuidadores informais, que têm como principais lacunas a gestão de stress.

No painel sobre cuidados em fim de vida, Ana Feliciano, enfermeira na UCC Sagrada Família, destacou o impacto positivo do plano integrado de ações paliativas junto dos utentes e famílias, permitindo um “acompanhamento personalizado e digno em vida” porque “só morremos uma vez e não podemos falhar nessa etapa”.

Pelo contrário, em contexto de lar de idosos, estamos longe desta realidade. Segundo a presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, Catarina Pazes, a maioria das estruturas ainda não tem integração formal com as equipas de cuidados paliativos e para inverter este cenário é necessária uma mudança na cultura organizacional e liderança.

No final da manhã, a sustentabilidade do modelo de respostas sociais foi o tema de debate entre Joaquim Pequicho, vice-presidente da Confecoop, e Sónia Baltazar, diretora adjunta do Centro Distrital de Lisboa do ISS.

Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas