A Misericórdia de Alcáçovas assinala 475 anos com sete meses de comemorações, iniciativas que aproximam gerações e projetos que apontam ao futuro

É pelo salão nobre que começa esta viagem pelos 475 anos da Santa Casa da Misericórdia de Alcáçovas. Sobre as mesas e nas vitrinas, documentos antigos contam uma história feita de respostas às necessidades de cada época. José Manuel Santos, provedor, conduz-nos por este percurso.

A exposição “A Assistência na Documentação da Santa Casa da Misericórdia de Alcáçovas” reúne documentação do arquivo da instituição e mostra como a Misericórdia foi acompanhando a comunidade ao longo dos séculos. O hospital, a prisão, o apoio aos órfãos, o estudo ou o enterro dos mortos são algumas das áreas que surgem neste caminho até chegar às respostas sociais de hoje. A mostra resulta do trabalho desenvolvido pela historiadora e arquivista Fátima Farrica, responsável pelo arquivo nos últimos anos.

Há algum documento que tenha surpreendido particularmente o provedor? A resposta é simples: “Todos eles me surpreendem”. Mais do que uma peça em particular, José Manuel Santos destaca a capacidade destes documentos para revelar “a dinâmica desta casa ao longo destes 475 anos”.

A exposição permite, assim, olhar para trás, mas as comemorações foram pensadas para fazer mais do que isso. Sete meses para assinalar 475 anos, num percurso que encontrou no número sete o seu fio condutor. A razão está nas 14 obras de misericórdia, divididas entre sete corporais e sete espirituais.

A ideia foi não concentrar quase cinco séculos de história num único aniversário. “Quisemos criar um percurso” que permitisse “celebrar o passado e o presente, mas também olhar um pouco para o futuro”, explica a vice-provedora, Iolanda Charrua.

O percurso começou em maio, com um painel digital sobre a história da Misericórdia. Em junho, crianças e idosos encontraram-se numa iniciativa intergeracional. Em julho, foi lançada uma cápsula do tempo, onde idosos, crianças e responsáveis da instituição deixaram mensagens para serem descobertas daqui a 50 anos.

Setembro trouxe a homenagem aos irmãos beneméritos e benfeitores, a eucaristia solene e a inauguração da exposição. Em outubro, serão mostrados os trabalhos da iniciativa intergeracional; em novembro está previsto o lançamento de um livro sobre a história da instituição e, em dezembro, um concerto na Igreja Matriz encerrará as comemorações.

Mas chegar aos 475 anos não significa apenas recordar. Significa também perceber o que é preciso fazer para que a história continue.

Hoje, a Misericórdia acompanha sobretudo duas gerações: os mais velhos e os mais novos. “Temos 108 vagas em lar, todas ocupadas, mais de 30 lugares em apoio domiciliário, cerca de 15 em centro de dia e aproximadamente 50 crianças entre a creche e o centro de atividades de tempos livres”, revela-nos o provedor.

Mudaram as necessidades e as respostas, mas permanece aquilo que José Manuel Santos considera ser a linha condutora da instituição: pessoas a cuidar de pessoas. Os desafios, contudo, são grandes. Os idosos chegam cada vez mais dependentes e com maiores fragilidades, enquanto se torna mais difícil garantir recursos humanos em quantidade e qualidade. O provedor defende “uma maior valorização dos profissionais, cujo trabalho exige um esforço físico e emocional significativo”.

Também os edifícios colocam problemas. Manter e adaptar estruturas com centenas de anos às exigências atuais de segurança, conforto e funcionalidade nem sempre será a melhor solução. Por isso, o grande projeto de futuro da Misericórdia de Alcáçovas é “a construção de um novo lar.”

É um futuro que se constrói olhando para a experiência de quem veio antes. O provedor diz “não querer que as comemorações sejam um reconhecimento da atual Mesa Administrativa”, mas, antes, “uma homenagem a todos os que contribuíram para estes 475 anos e um incentivo às gerações que virão”. “Se conseguiram chegar até aqui, vamos conseguir chegar mais à frente”, complementa.

No caminho, há ainda quem assegure, todos os dias, que essa continuidade seja possível. José Manuel Santos deixa um agradecimento especial aos trabalhadores, que considera “o alicerce desta casa”, e aos voluntários que também ajudam a manter viva a missão da Misericórdia.

Voz das Misericórdias, Rosário Silva