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- Almada | Jantar que reforça sentimento de pertença e prepara o futuro
Na cozinha, o arroz ganha corpo lentamente, enquanto o vapor se levanta em nuvens suaves e se mistura com vozes e risos, próprios de quem está concentrado, mas, ao mesmo tempo, a descobrir qualquer coisa nova. Carlos Capote, conhecido chef português, está à volta da bancada, com a segurança de quem traz décadas de experiência nas mãos, ora observando, ora corrigindo, ora explicando, sempre com um olhar atento, quase pedagógico, mas sem rigidez.
“Este é um arroz de substância”, diz à nossa reportagem, com a naturalidade de quem fala de algo que conhece desde sempre. “Era o que se fazia com as sobras… de um cozido, de carnes. Uma forma de aproveitar tudo.”
À sua volta, um grupo de jovens segue-lhe os gestos, uns mais ágeis, outros mais hesitantes, mas todos envolvidos numa dinâmica que vai muito além da simples preparação de um jantar. Há ali uma espécie de cumplicidade em construção, feita de pequenas tarefas partilhadas, de erros corrigidos no momento e Almada de uma atenção que não é apenas técnica, é também emocional.
No meio da azáfama está Linda Gomes, 22 anos, estudante de Direito, a frequentar o terceiro ano, em Lisboa. Vive há cinco anos na Casa de Recolhimento D. Nuno Álvares Pereira, da Santa Casa da Misericórdia de Almada, tempo suficiente para que aquilo que começou por ser um espaço estranho se tenha transformado, pouco a pouco, num lugar habitável. “No início é confuso e complicado”, admite, sem dramatizar. “Mas depois vamo-nos adaptando às pessoas, ao ambiente e acabamos por conviver mais uns com os outros.”
Neste dia, de avental, integra naturalmente o grupo, participando numa organização que, apesar de improvisada, revela um certo equilíbrio. “Estamos todos a fazer tudo, em grupo”, diz, com simplicidade. O jantar que preparam chama-se ‘À mesa somos casa’. Mas o nome, longe de ser apenas um título sugestivo, resulta de um processo mais profundo, construído ao longo de meses dentro da própria casa de acolhimento.
O lar acolhe atualmente cerca de 45 crianças e jovens em risco, provenientes do distrito de Setúbal, encaminhados por decisão da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens ou por via judicial, sempre que se torna necessário um afastamento temporário do contexto familiar. Ali, garante-se a proteção, mas também, e sobretudo, a construção de um futuro possível.
“Mais do que responder às necessidades básicas, queremos desenvolver competências pessoais e sociais”, explica a diretora técnica, Liliana Silva. “O objetivo é que estas crianças e jovens consigam integrar-se na comunidade e construir a sua vida com autonomia.”
É nesse contexto que surgem projetos como este jantar, que não nasce de forma isolada, mas da interligação de diferentes dimensões do trabalho desenvolvido na instituição.
Por um lado, o projeto Sentidos, orientado para o desenvolvimento da autonomia, sobretudo junto dos mais velhos, preparando-os para uma vida independente, onde saber cozinhar, gerir um orçamento ou organizar o dia a dia deixa de ser uma opção para se tornar uma necessidade concreta. Por outro, os grupos terapêuticos, uma intervenção psicológica feita em pequenos grupos, onde todos os anos se trabalha uma temática específica.
Este ano, a escolha recaiu sobre o sentimento de pertença: “Tivemos muitas saídas e muitas entradas de jovens, alguns bastante novos, e sentimos que era importante reforçar esta ideia de que este é um espaço onde podem sentir-se parte”, explica a psicóloga Sara Freitas, dinamizadora dos grupos terapêuticos. “Mesmo sendo temporário, queremos que seja vivido como uma casa”, sublinha.
Foi precisamente nesses grupos que a ideia começou a ganhar forma. Desafiados a pensar e a criar, os jovens foram apresentando propostas, discutindo possibilidades, até que surgiu o conceito do jantar solidário.
“Eles estiveram envolvidos em todo o processo”, refere Sara Freitas. “Desde as compras à preparação, à decoração, à forma como tudo iria acontecer. Não é só o dia de hoje, é tudo o que veio antes.”
Ao longo desse percurso, foram sendo trabalhadas competências fundamentais: comunicação, iniciativa, tomada de decisão, autorregulação. Mas, acima de tudo, a relação, entre pares, com os cuidadores e com a própria comunidade.
E é precisamente essa ligação à comunidade que o jantar reforça, ao reunir parceiros da instituição (por um valor simbólico que mais tarde terá um destino), num espaço que se quer, acima de tudo, de partilha, mas que não se esgota numa simples refeição.
Na Misericórdia de Almada, está já em curso uma nova resposta social, a chamada “primeira casa”, pensada para jovens que se encontram na fase de transição para a vida autónoma. “Tudo isto está ligado”, sublinha a diretora e coordenadora da instituição, Sofia Valério. “Não são iniciativas isoladas. Há um percurso.”
A necessidade foi sendo identificada ao longo do tempo pela própria equipa, que percebeu que, entre a proteção institucional e a autonomia plena, existia um vazio difícil de gerir.
“Uma coisa é aprender, outra é aplicar”, explica. “Aqui eles adquirem competências, mas depois saem e têm de as colocar em prática, muitas vezes sem rede de suporte.”
A “primeira casa” surge precisamente como resposta a esse intervalo. Instalado num apartamento atualmente em fase de reabilitação, o projeto permitirá aos jovens viverem de forma mais autónoma, mas ainda acompanhados por uma equipa técnica, criando um contexto intermédio onde possam experimentar, errar e consolidar aprendizagens. “No fundo, queremos evitar esse salto abrupto”, diz Sofia Valério, e “criar uma transição mais segura.”
Alguns dos jovens que hoje participam no jantar poderão vir a integrar essa casa. Linda é uma delas: “Depende se a casa estiver pronta a tempo”, diz, com um pragmatismo sereno. Está a terminar o curso e sabe que a saída se aproxima, mas não encara o futuro com a mesma incerteza de outros tempos. “Já estamos aqui a trabalhar juntos e isso ajuda. Se formos para lá, já sabemos mais ou menos como vai ser.”
Entretanto, na cozinha, a comida fica pronta. Carlos Capote observa o resultado, mas o seu olhar detém-se sobretudo no grupo. Entre eles, identifica sinais: vontade, curiosidade e disponibilidade para aprender: “Há sempre um ou dois que se destacam”, diz. “Mas todos, com o tempo, chegam lá.”
E talvez seja precisamente isso que se constrói naquele espaço, entre receitas antigas e aprendizagens novas. Mais do que um jantar, mais do que um projeto, mais do que uma iniciativa pontual, o que ali se desenha é um processo contínuo de crescimento, feito de tentativas, de erros, de conquistas discretas. Uma forma de transformar um lugar de passagem num espaço de pertença. E de fazer da mesa, ainda que por instantes, uma verdadeira casa.