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- Alpalhão | Livro de receitas é um ‘arquivo afetivo de vidas inteiras’
A Igreja do Espírito Santo, em Alpalhão, encheu-se de emoção, partilha e memórias com a apresentação do livro “Receitas para Ti, Memórias para Mim”, uma obra construída a partir das histórias, sabores e recordações dos utentes das várias respostas sociais da Santa Casa da Misericórdia de Alpalhão. A apresentação integrou as comemorações do Dia das Misericórdias, assinalado pela instituição a 23 de maio.
O livro nasceu de forma improvável. Não surgiu de uma reunião formal nem de uma estratégia previamente definida. Nasceu das conversas simples entre utentes, durante as sessões dinamizadas pela psicomotricista Cátia Lopes, grande impulsionadora do projeto.
Tudo começou quando a instituição alterou a forma como eram preparadas as refeições. A comida voltou a ser confecionada na própria Santa Casa e, de repente, os corredores encheram-se de perguntas, expectativas e recordações entre os utentes.
“Percebi que aquilo que mais lhes importava não era apenas a qualidade, mas o tipo de comida. Era o sabor das receitas de antigamente, da sopa da mãe, das refeições feitas em dias especiais”, explicou Cátia Lopes durante a apresentação da obra.
Foi então que nasceu a ideia do livro. Não como um simples receituário, mas como um verdadeiro arquivo afetivo de vidas inteiras.
A obra reúne contributos de utentes do centro de dia, da estrutura residencial para pessoas idosas e do serviço de apoio domiciliário, recuperando receitas tradicionais que atravessaram gerações e permanecem vivas na memória coletiva da comunidade.
Entre os pratos reunidos no livro encontram-se sabores profundamente ligados à identidade alpalhoense, como o arroz de cacholeira, as batatas de argola, as papas de milho, as migas com couve, os pastéis de massa tenra ou o caril de frango.
Ao folhear as páginas de “Receitas para Ti, Memórias para Mim”, percebe-se rapidamente que a obra não está organizada por entradas, pratos principais ou sobremesas. Está organizada por pessoas. Porque, como defendeu Cátia Lopes, “o mais importante não é a receita, são as memórias associadas a ela e a história de vida que fica eternizada”.
Cada página é um reencontro. Há receitas que remetem para o cheiro da cozinha da avó, para os almoços de domingo, para os tempos das ceifas ou para os dias em que a família inteira cabia à volta da mesa.
O projeto acabou por transformar-se numa poderosa ferramenta de estimulação cognitiva e emocional. Muitos utentes que inicialmente diziam “já não me lembro de nada” acabaram por recuperar episódios esquecidos ao ouvirem as histórias uns dos outros.
“Quando começámos a apresentar o livro, as memórias começaram a surgir naturalmente. Uns desbloqueavam os outros”, contou Cátia Lopes.
A cerimónia ficou marcada por momentos de grande nostalgia, com vários utentes a recordarem tradições antigas e pratos que marcaram as suas vidas.
No final, ficou a certeza de que “Receitas para Ti, Memórias para Mim” é muito mais do que um livro de culinária. É um retrato afetivo de uma comunidade, onde cada prato conta uma história e cada memória continua viva à mesa.
Voz das Misericórdias, Tiago Silva