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- Barreiro | Falar através dos números é contar metade da história
Quem entra na Misericórdia do Barreiro encontra corredores, salas de convívio, gabinetes, quartos, serviços e equipas que trabalham sem descanso. Mas encontra também algo menos visível: uma casa onde se procura que cada pessoa continue a sentir-se parte da vida.
É essa a missão que une as diferentes respostas sociais da instituição, desde a creche às estruturas residenciais para pessoas idosas, passando pelo apoio domiciliário, cantina social, comunidade de inserção e centro de acolhimento temporário.
Ao todo, são centenas de vidas que se cruzam diariamente numa instituição que acompanha 260 utentes em regime de internamento, presta apoio domiciliário a mais de 80 pessoas, serve diariamente entre 120 e 130 refeições através da cantina social, acolhe mais de 60 utentes na comunidade de inserção, recebe 88 crianças na creche e mantém respostas para crianças em risco e mães com os seus filhos.
Para a provedora, Sara Oliveira, esta dimensão traduz uma responsabilidade crescente perante uma população cada vez mais envelhecida. “Queremos que a comunidade conheça a Misericórdia como uma mais-valia para o concelho”, afirma, sublinhando que a instituição continua disponível para acolher quem dela necessita e para trabalhar em proximidade com os parceiros sociais.
Mas, por detrás desta resposta permanente, existem preocupações que nem sempre são visíveis. A sustentabilidade financeira continua a ser uma das maiores dificuldades. Sem património gerador de receitas, como acontece noutras Misericórdias, a instituição depende essencialmente dos acordos de cooperação, das comparticipações familiares e de um mecenato que tem vindo a diminuir. A burocracia dos programas de financiamento e a necessidade de rever os apoios são outras das preocupações apontadas pela provedora. “Estas instituições fazem o trabalho que o Estado deveria fazer e não faz. Para podermos prestar cuidados com qualidade, precisamos de ser apoiados verdadeiramente”, sublinha.
Mas falar da Santa Casa do Barreiro apenas através dos números ou dos desafios financeiros seria contar apenas metade da história. A outra metade constrói-se todos os dias nos pequenos gestos. Por exemplo: na música que ecoa pelo espaço, nas oficinas onde os utentes pintam, recortam e criam, nas conversas entre residentes ou nas amizades que continuam a nascer.
É precisamente essa dimensão que ganha maior visibilidade durante a tradicional festa dos Santos Populares, uma iniciativa que, há mais de trinta anos, reúne residentes, colaboradores e instituições parceiras. Muito antes de se ouvirem as marchas ou de se servirem as sardinhas, a festa começa a ser preparada dentro da própria casa.
Ao longo de meses, muitos utentes dedicam-se à pintura das flores, painéis e restantes elementos decorativos que irão integrar a marcha. Em paralelo, colaboradores de diferentes setores deixam as suas funções habituais para ensaiar coreografias, preparar a logística ou organizar o almoço-convívio.
“É um trabalho que envolve praticamente toda a instituição”, explica Sara Coelho, diretora de serviços e principal dinamizadora da iniciativa. “Os trabalhadores disponibilizam parte do seu tempo para os ensaios e os próprios utentes participam na preparação das decorações. Para eles, é um dia muito especial.”
Este ano, o vento e a chuva obrigaram a alterar os planos. A missa campal e a festa prevista para o exterior foram transferidas para o interior da instituição. A logística mudou quase por completo, mas manteve-se uma preocupação essencial: respeitar as rotinas dos residentes mais vulneráveis e garantir que todos pudessem participar da forma mais confortável possível.
Até a marcha conheceu uma novidade. A letra foi construída com o apoio da inteligência artificial, mostrando que tradição e inovação podem caminhar lado a lado quando o objetivo continua a ser o mesmo: proporcionar momentos de felicidade.
Mas quem melhor explica o significado destas iniciativas são, talvez, os próprios utentes. Maria Vitória Mendes, de 86 anos, vive na instituição há quatro anos. Quando lhe perguntamos se gosta de ali estar, responde sem hesitar. “Tenho cá muitas amigas.” Poucas palavras bastam para resumir o sentimento de pertença que foi construindo naquele lugar.
Sara Simões, de 93 anos, também acompanha com entusiasmo estas celebrações e recorda que chegou a colaborar na preparação das marchas: “Acho que estas iniciativas fazem muito bem. Fazem bem até à cabeça das pessoas."
A frase fica a ecoar muito para além da conversa. Porque é precisamente disso que se trata. Na Misericórdia do Barreiro, celebrar nunca foi apenas organizar uma festa. É uma forma de cuidar. Porque cuidar também é criar memórias, preservar a dignidade, alimentar a esperança e fazer com que cada pessoa continue a sentir que pertence a uma comunidade. E é talvez por isso que, nesta casa, celebrar também faz parte dos cuidados.
Voz das Misericórdias, Rosário Silva