Podcast ‘Vozes do Tempo’ foi pensado como ‘um espaço seguro, respeitoso e humanizado, no qual cada utente é reconhecido como sujeito de história e não apenas como destinatário de cuidados’

Na Santa Casa da Misericórdia do Crato o cuidado às pessoas idosas não se esgota na resposta às necessidades físicas ou assistenciais. Constrói-se, sobretudo, na atenção à história de vida, à dignidade e ao sentido de pertença de cada pessoa.

Foi neste enquadramento institucional e comunitário que nasceu o podcast ‘Vozes do Tempo’, uma iniciativa que emerge da necessidade sentida de criar espaços reais de escuta, reconhecimento e valorização da memória coletiva dos utentes.

Conforme explica a instituição, ao longo do trabalho diário em contexto de lar, tornou-se “evidente” que “muitos idosos carregam consigo histórias riquíssimas, experiências de trabalho, de família, de luta e de afeto que raramente encontram tempo, público ou enquadramento para serem partilhadas”. O podcast surge, assim, como uma resposta simples, mas “profundamente significativa”, a essa lacuna: dar voz a quem tantas vezes sente que o tempo o tornou invisível.

Integrado numa perspetiva de intervenção psicossocial e de envelhecimento ativo, o ‘Vozes do Tempo’ foi pensado como “um espaço seguro, respeitoso e humanizado, no qual cada utente é reconhecido como sujeito de história e não apenas como destinatário de cuidados”.

Cada episódio é construído a partir da narrativa do próprio utente, respeitando o seu ritmo, as suas memórias e as emoções que emergem das recordações.

De acordo com Gonçalo Roldão, psicólogo da instituição, este processo tem revelado um “impacto significativo ao nível da autoestima, do bem-estar emocional e do sentimento de utilidade social”, na medida em que os participantes se sentem “orgulhosos por deixarem um testemunho que ficará registado e que poderá ser escutado por familiares, comunidade e futuras gerações”. O ‘Vozes do Tempo’ assume também um papel fundamental na aproximação entre o lar e a comunidade envolvente. Ao partilhar histórias de vida ligadas à terra, aos ofícios, às tradições locais, às festas, às relações familiares e ao trabalho, o podcast reforça pontes intergeracionais e devolve à comunidade a memória viva daqueles que a ajudaram a construir. “Assim reconhece-se neste relato uma parte da identidade coletiva do Crato”, constata Gonçalo Roldão.

Mais do que um projeto de comunicação, o ‘Vozes do Tempo’ é um exercício de preservação de memórias, afetos e tradições. Cada episódio constitui um património imaterial, onde se cruzam vivências pessoais e história local, contribuindo para a construção de uma identidade que não se perde com o tempo, mas que se fortalece quando é partilhada.

A instituição acredita que, “num mundo marcado pela rapidez e pelo esquecimento”, este podcast afirma-se como um “gesto de resistência humanista: parar para ouvir, para cuidar e para (re)lembrar”.

Alinhado com os valores das Misericórdias - dignidade humana, solidariedade, memória e cuidado - o ‘Vozes do Tempo’ reafirma a missão da Misericórdia do Crato de colocar a pessoa no centro da intervenção. Dar voz aos idosos é “reconhecer que o tempo não apaga o valor de ninguém; pelo contrário, dá-lhe profundidade”.

Voz das Misericórdias