As equipas de intervenção direta das Misericórdias de São João da Madeira e Oliveira de Azeméis acompanham, segundo a Carta Social, quase 400 pessoas. No terreno, as equipas consideram que saber ouvir é uma das principais estratégias para o sucesso do trabalho que desenvolvem

Podia ter corrido mal e durante muito tempo assim foi. Maria (nome fictício) fez um poker. Droga, álcool, tráfico, delinquência, sem-abrigo. “Passei por tudo o que possam imaginar”. No seio de uma família disfuncional, Maria era a mais velha de cinco irmãos. Foi pai e mãe daquelas crianças, mas nunca teve o colo que precisava. Miúda rebelde, “lutou” e fugiu alguns anos daqueles que a queriam ajudar. Estes, porém, nunca desistiram. Estes são a equipa de intervenção direta ‘Soltar Amarras’ da Santa Casa da Misericórdia de Oliveira de Azeméis.

O VM conheceu duas equipas de intervenção direta: ‘Soltar Amarras’, de Oliveira de Azeméis, e ‘Trilho’, da Misericórdia de São João da Madeira, que ao todo e segundo dados da Carta Social acompanham quase 400 pessoas.

Ambas parceiras, partilham experiências, ideias e projetos. Tudo em prol dos mais vulneráveis. Crianças e jovens menores, homens, mulheres, idosos, famílias que, por circunstâncias várias, precisam de apoio. Apoio económico, social, psicológico, emocional ou outro. Estas equipas estão, não raras vezes, disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana. Insistem, mesmo quando do outro lado ouvem, repetidamente, “nãos”. Não desistem mesmo quando do outro lado tudo parece desmoronar.

Assim foi com Maria. Regressamos à sua história com final feliz, mas com um percurso sinuoso. “Fazem tudo por amor e carinho. Porque, sinceramente, o que fazem, ninguém faz… ou para mim, ninguém fez. Sinto que a minha força para vingar foi saber que tinha alguém que estava comigo, que acreditava em mim. O trabalho pode ter sido meu, mas se eu não tivesse o apoio deles acredito, sinceramente, que não estaria aqui. Foi álcool, foi drogas, foi tráfico… foi tudo o que possam imaginar. Dormi na rua, mas sabia que tinha alguém que se importava comigo. Não desistiram. O termo é não desistir. Se não tivessem aparecido na minha vida, eu acho que não estaria aqui hoje”.

Palavras na primeira pessoa que não deixam indiferente quem ouve. Maria passou por outros projetos e equipas, mas foi na ‘Soltar Amarras’ que encontrou força para vencer. Hoje, é mãe, companheira, responsável. Tem casa e emprego. “Não sabia o que era ser cuidada, ou ser amada e aqui eu senti isso. Sinto que posso encaminhar qualquer pessoa que esteja numa situação má para aqui, porque sei que a vão ajudar. São fantásticos”, elogia.

Pela ‘Soltar Amarras’ e também pelo ‘Trilho’ já passaram histórias muito semelhantes a esta. Em mais de duas décadas de atividade foram cerca de 1000 os utentes acompanhados por cada uma destas valências.

Cada caso é um caso, mas a premissa repete-se. Cristina Martins, educadora social da ‘Soltar Amarras’ explica que o trabalho é desenvolvido com proximidade. “Nós trabalhamos muito no terreno. Vamos a casa. Mesmo que eles não queiram, mesmo que não seja o momento, nós vamos ligando. Porque hoje podem não querer. Amanhã podem não querer. Na próxima semana já podem querer. E mesmo que já estejam bem, continuamos a ligar. Não é todos os dias, mas vamos continuando a ligar. Porque eles hoje podem estar bem e amanhã já podem não estar. E acredito mesmo que não podemos largar a mão assim, de um dia para o outro”, acrescenta a educadora social de Oliveira de Azeméis.

 

Ateliês de ocupação e combate à solidão

Os ateliês e os espaços ocu pacionais que existem nas Misericórdias de São João da Madeira e Oliveira de Azeméis partilham os mesmos objetivos. Não se trata apenas de reintegração social, até porque muitos utentes não poderão voltar ao mercado de trabalho por questões de idade ou de saúde, mas sobretudo de combater a solidão.

Renata Silva, assistente social do ‘Trilho’ e coordenadora do ‘Trapézio Com Rede’ acredita que esta é uma forma de “ocupação de tempo livre dos nossos utentes de modo mais supervisionado”. Em simultâneo, as diferentes oficinas permitem o desenvolvimento de competências.

Artes plásticas, fotografia, expressão artística, entre outros, são alguns dos ateliês com vista ao desenvolvimento de competências, “para que eles possam experimentar aquilo que é o seu potencial criativo e também estabelecer uma rotina”. Cristina Martins, da ‘Soltar Amarras’, acrescenta que a ocupação ajuda a atenuar comportamentos de risco. “Os alcoólicos que acompanhamos são, na sua grande maioria, homens com mais de 50 anos, que vivem sozinhos, sem rede de apoio e em situações muitas vezes precárias. Sem qualquer ocupação, o que é que eles fazem? Saem de casa e o único sítio para estar com algum conforto e algum convívio é no café”, explica. Ao estarem ocupados, “estão mais protegidos”.

Numa visão mais alargada, ambas as equipas reconhecem que combatendo a solidão dos seus utentes estão, simultaneamente, a atuar no campo da saúde mental. “Aliadas às nossas equipas deviam existir equipas de saúde mental”, admite Cristina Martins. “Mais do que uma necessidade, é uma urgência projetos de intervenção no âmbito da saúde mental”, acrescenta Priscila Almeida.

 

Uma casa para dar ânimo a 11 pessoas

Com capacidade para 11 pessoas, a Santa Casa da Misericórdia de São João da Madeira tem, desde 2022, dois apartamentos partilhados com serviços de apoio e acompanhamento social de pessoas em situação de sem-abrigo. O projeto surgiu em 2019, no âmbito de uma parceria com o município e a empresa municipal Habitar.

Quando a ideia surgiu, o foco era apoiar pessoas em situação de sem-abrigo, com comportamentos aditivos e dependências. Mais tarde, no âmbito de um quadro de financiamento, viram aprovada uma candidatura para a criação de uma nova resposta social: apartamentos partilhados. Assim, desde abril de 2022, a Misericórdia de São João da Madeira dispõe de dois apartamentos (T3 e T4), num total de 11 vagas para pessoas em situação de sem-abrigo.

Ana Margarida Oliveira, assistente social dos apartamentos partilhados, considera ser uma “resposta inovadora”, que está a ser muito valorizada por quem usufrui e também pelas equipas, que asseguram um contacto próximo e direto 24 horas por dia, sete dias por semana.

“É uma mais-valia na vida das pessoas. Saberem que têm um sítio quente para dormir, um sítio onde podem comer uma refeição quente, para ir procurar trabalho no dia seguinte, dá-lhes mais ânimo e mais vontade”, sustenta. Sendo uma resposta de carácter transitório, a estas pessoas é dada uma oportunidade “de se reinventarem”, remata a assistente social.

Voz das Misericórdias, Vera Campos