Durante duas semanas, a Misericórdia da Figueira da Foz disponibilizou uma plataforma elevatória que permitiu aliviar a saudade

Quando Santana Dias chega à janela de um dos quartos e vê, do lado de fora, em cima de uma plataforma elevatória, a esposa, acompanhada da neta e da filha, não contém a emoção. Tinham-lhe dito que havia uma surpresa à sua espera, mas estava longe de imaginar a visita que iria receber. Estica os braços e fecha-os, como se as estivesse a abraçar. Não lhes pode tocar, mas vê-las e ouvi-las ali tão perto é mais do que suficiente para que nunca retire o sorriso do rosto, nem mesmo quando a plataforma começa a baixar, para as levar de volta, com a promessa de regressarem em breve.

Santana Dias foi um dos utentes dos lares de Santo António e Silva Soares da Misericórdia da Figueira da Foz que receberam visitas de familiares através de uma plataforma elevatória instalada no exterior, depois de mais de dois meses de confinamento, devido à pandemia de Covid-19. O serviço começou a funcionar no início de maio e terminou quinze dias depois, com o regresso das visitas aos lares. Foram, no entanto, duas semanas em que a grua, emprestada pela empresa Qualigesso, ajudou a matar as saudades acumuladas ao longo do período de confinamento, abrangendo 83 utentes, que receberam visitas de 133 familiares.

“É uma ideia maravilhosa. Permite-nos, em segurança, falar com eles e perceber o seu estado de espírito”, realça Ana Paula Dias, esposa de Santana Dias, expressando a “alegria” e a tranquilidade por “confirmar” que o marido se encontra bem. “Está com ótimo aspeto e muito bem-disposto”, confidencia, enquanto sai da plataforma. Já com os pés, de novo, assentes na terra, partilha com o Voz das Misericórdias que os minutos que esteve com o marido “valeram por horas”. Ao seu lado, a neta, de oito anos, comenta a aventura de subir e descer através da plataforma. “Parece um carrossel”, brinca Carolina, admitindo que essa foi uma das partes boas da visita. Mas, frisa, “não tão bom como estar com o avô”, que já não via há alguns meses.

Enquanto conversamos com Carolina e com a avó, é a vez de Elisabete Carvalho visitar a sogra, de 92 anos, que se abeira da varanda na sua cadeira-de-rodas. Não se viam desde “meados de fevereiro”, quando a instituição começou a impor medidas de restrição, mas falam-se todos os dias através do telefone. Agora, puderam estar frente a frente durante alguns minutos, os suficientes para “matar saudades”.

“Ela tem a noção do que se passa e percebe por que não a visitamos. Sei que não se sente abandonada. Mas, se para nós é duro, para ela também não é fácil”, constata Elisabete Carvalho, que confessa que a visita, “mesmo que sem o conforto do abraço”, lhe preencheu a alma. “Vou de coração cheio”.

Esse é, aliás, um sentimento partilhado também pelos funcionários e responsáveis da instituição. “Ver a felicidade de utentes e famílias, comove. Enche-nos o coração”, assume Carla Gomes, diretora técnica do Lar Silva Lopes, a quem coube a tarefa de contactar todas as famílias para agendar as visitas.

As subidas e descidas na plataforma elevatória foram-se sucedendo ao longo da tarde, 10 a 15 minutos a cada família, respeitando as condições de segurança impostas pela Covid-19, nomeadamente o uso de máscaras e viseiras de proteção e a desinfeção do cesto da máquina a cada utilização.

Joaquim Sousa, provedor da Misericórdia, conta que a inspiração veio de uma notícia que dava conta de uma ideia semelhante promovida em Bruxelas. A instituição lançou o desafio a um construtor civil do concelho, Filipe Oliveira, que respondeu positivamente ao pedido e disponibilizou a plataforma elevatória, que habitualmente é usada por trabalhadores em obras em altura.  O objetivo, explica, era “aligeirar a ansiedade” dos idosos que estavam “desde março sem a presença física dos familiares”.

E, tal como prometeu o provedor aquando da visita do VM à instituição, o projeto ficou até que fossem retomadas as visitas, que naquele dia ainda não se sabia quando aconteceria.  Para memória futura fica a “felicidade” proporcionada a utentes e familiares, cujos ecos correram mundo através de notícias publicadas em países como “Brasil, EUA, França, Inglaterra, Marrocos, Paquistão, Ilha Reunião, África do Sul ou Austrália”, refere o provedor.

Voz das Misericórdias, Maria Anabela Silva