A Misericórdia de Penamacor é a guardiã da tradição de decorar com flores silvestres as igrejas locais para a Semana Santa

Em Penamacor, na noite de quinta-feira antes da Páscoa, as capelas e as igrejas da vila abrem as portas às ladainhas e ao público que, além de acompanhar o coro de vozes dos tradicionais cânticos, se deixa surpreender, em cada templo, pelos seus arranjos florais.

Tudo começa na igreja da Misericórdia, ao cimo da vila, onde um jardim de flores do campo ocupa o centro deste templo, datado do século XVI. Pela Páscoa, os visitantes, maioritariamente portugueses e espanhóis dada a proximidade de Penamacor com a fronteira, são surpreendidos por arranjos compostos de urze roxa, mais abundante a sul, urze branca, que floresce a norte do concelho, e tremocilhas amarelas e lilases, que crescem junto às estradas ou em terrenos cultivados que os proprietários oferecem à Misericórdia de Penamacor.

Além das flores, sobressaem nestes efémeros jardins o que em Penamacor chamam de cabeleiras, por se parecerem com cabelos, mas que na verdade são ramos de ervilhaca branca e de trigo amarelo que não passaram das três semanas e por isso se assemelham a fios de cabelos que, emaranhados, formam autênticas cabeleiras.

Para que isso aconteça, tudo começa a ser preparado com muita antecedência. As sementeiras do trigo, da ervilhaca e do milho, que este ano não germinou, são feitas três semanas antes da quinta-feira de Páscoa, em locais escuros, para que fiquem com aquele aspeto.

Dois dias antes, trabalhadoras ou irmãs da Misericórdia vão para o campo à procura das flores silvestres e durante um dia e meio preparam o jardim que haverá de surpreender os visitantes e tornar bela ao olhar esta tradição.

A sua origem perde-se no tempo. Não há registo de como ou quando terá começado, mas sabe-se que foi evoluindo no tempo e na grandiosidade, como explica o provedor da Misericórdia de Penamacor, João Cunha. “Antigamente não era a Misericórdia, eram as pessoas que as semeavam e as traziam para a igreja, tem a ver com o culto da fertilidade dos cereais, era uma oferta ao Santíssimo, à Igreja, para que fosse uma colheita boa durante esse ano.” Mas, o concelho de Penamacor perdeu muita população, “não tem um terço das pessoas que tinha há 70 ou 80 anos” e este decréscimo também chega às tradições”. É neste contexto que a Misericórdia de Penamacor assume a responsabilidade dos arranjos florais da igreja da Misericórdia e da igreja do Convento de Santo António.

As flores também foram evoluindo. “Antigamente eram goivos, que hoje já não existem com tanta abundância” e por isso se utilizam as flores da época e dos campos. “Nada é comprado, vamos buscar aos campos”. As cores também não são despicientes, já que que o violeta é a cor associada ao período da Quaresma.

As flores mantêm-se nos templos até domingo de Páscoa e é dos raros momentos em que a capela da Misericórdia abre ao público, apesar da disponibilidade da instituição para a abrir sempre que solicitada pelo município para visitas. “A Santa Casa não tem uma estrutura para manter as duas capelas abertas”, revela João Cunha.

É na igreja da Misericórdia que começa e termina esta manifestação de fé. O templo, do período manuelino, é atestado pelas características do seu imponente portal, com duas arquivoltas ornamentadas de motivos vegetalistas e pela talha de estilo nacional do altar-mor. Esta igreja é a porta de entrada na zona histórica de Penamacor, onde também a igreja de São Pedro se veste de flores. Do percurso faz ainda parte a igreja do Convento de Santo António, que é também da responsabilidade da Misericórdia. O jardim de flores, que acolhe na época da Páscoa, dá ainda mais brilho aos seus altares de talha dourada.

A Misericórdia de Penamacor tem um livro onde o visitante pode deixar o seu testemunho e o deslumbramento com a beleza dos templos ornamentados.

Voz das Misericórdias, Paula Brito