Superação, felicidade e emoção. Três palavras que assentam como uma luva nos atores que protagonizaram a apresentação pública da peça de teatro “Aldeia de Lázaro”. “Fiquei muito agradada e confesso que a expectativa não era tão alta”, revelou ao VM a mesária da Santa Casa da Misericórdia do Porto, Albertina Amorim.

O espetáculo decorreu no dia 16 de setembro, no auditório D. Pedro IV, com os residentes da estrutura residencial para pessoas idosas (ERPI) São Lázaro. Os minutos que antecederam a estreia foram vividos com alguma adrenalina, à medida que os familiares e alguns companheiros da ERPI iam chegando e preenchendo os lugares disponíveis.

A primeira saudação surgiu da mesária da Santa Casa. Em representação do provedor António Tavares, Albertina Amorim lembrou que, após a privação que a Covid-19 provocou, “regressar ao palco com uma peça original, trabalhada pelo grupo de teatro da estrutura, é um momento de grande emoção que deve ser assinalado”. “A idade traz coisas boas”, realçou ainda a mesária, acrescentando que, além do “talento escondido, são valorizadas a disponibilidade mental e física”.

Dadas as boas-vindas, entra em palco a apresentadora Maria Teresa Canedo – utente, mas também uma das principais atrizes na peça.

O elenco entra em palco e o espetáculo começa. Logo na primeira cena, soltam-se gargalhadas na plateia. Uma constante ao longo dos cerca de 30 minutos de exibição, que assenta na personagem da D. Celeste que regressa à aldeia, após viver anos na cidade. Com esta vinda, acabam-se as aulas de hidroginástica clandestinas, autorizadas pelo caseiro enquanto cuidava da sua mansão. No final, tudo acaba com uma grande festa entre os habitantes.

Helena Pratinha, animadora sociocultural, conta que “o texto foi sendo alterado e melhorado à medida que os ensaios se repetiam”. “A construção deste espetáculo demorou um ano, com vários residentes a entrarem durante a preparação, motivando alterações ao texto para a introdução de novas personagens”, revela.

Quase todos os nove “artistas” têm a bonita idade de 90 anos, tornando o desafio mais aliciante, mas também “mais difícil de executar”, considera Helena Pratinha.

Para a animadora e ensaiadora – também com formação em teatro – foram trabalhadas várias competências: a memória, a concentração, a criatividade e o espírito de grupo. “Inicialmente, este grupo praticamente nem se falava, tinha a sua vida muito individualizada. Hoje, são grandes amigos”, garante Helena Pratinha.

Maria Teresa Canedo (Lurdes, na peça) fez o papel de surda, uma missão facilitada, conta sorridente. “Eu sou mesmo surda”, atira com uma gargalhada. “Nunca tinha feito teatro na vida. A minha memória ajuda muito. Adoro ler e tenho uma enorme facilidade em decorar tudo”, revelou.

Para Elvira Braga (D. São na peça) também foi a primeira vez a pisar um palco. Costureira aposentada, faz questão de dizer que apenas tem a quarta classe, mas o seu timbre de voz merece rasgados elogios. “Sempre gostei de ler bem, fazer uma boa leitura, uma exigência dos meus antigos professores que preservei”, confessa.

“Vim arrastada pela doutora Helena para este elenco. Nunca pensei que seria capaz”, revela a utente, mostrando-se disponível e entusiasmada para “voltar a repetir este espetáculo se a oportunidade surgir”.

Albertina Amorim destaca o momento de partilha e de inclusão que estes momentos proporcionam, salientando a presença e o papel das famílias no acompanhamento que fazem aos seus idosos.

A mesária deixa a garantia que este foi o primeiro de muitos espetáculos públicos, mostrando-se convicta de que a adesão dos utentes será maior. “Tenho a certeza disso. Este espetáculo vai puxar os outros”, reforça.

Helena Pratinha, muito elogiada pelo trabalho desenvolvido e pelo resultado final revela: “Para mim, foi o concretizar de um sonho. O meu foco sempre foi levar os idosos para palco e consegui”, afirma orgulhosa.

Recorde-se que a Santa Casa da Misericórdia do Porto é uma das maiores do país, apoiando diariamente mais de 3000 pessoas, através de um leque variado de serviços. No que respeita a estruturas residenciais para pessoas idosas, além da ERPI São Lázaro, a instituição é ainda responsável pela ERPI Nossa Senhora da Misericórdia do Porto e ERPI Pereira de Lima. Fundada em 1499, a Misericórdia do Porto conta com cerca de 1500 trabalhadores.

 

Voz das Misericórdias, Paulo Sérgio Gonçalves