Há pessoas que chegam às Misericórdias por acaso. E há aquelas que acabam por lhes entregar uma vida inteira. Horácio Carvalho Pereira pertence ao segundo grupo, embora nunca o tivesse imaginado.
Nasceu em 1944, na Aldeia do Futuro, no concelho de Grândola. Cresceu numa época em que a infância acabava cedo e o trabalho começava logo a seguir à escola primária. Guarda dessa altura uma herança simples e sólida: os ensinamentos do pai. “Exigia honestidade, trabalho e rigor”, recorda. Valores que, diz, o acompanharam sempre.
O primeiro encontro com a Misericórdia de Grândola aconteceu num tempo difícil, marcado por tensões políticas e disputas pelo controlo das instituições locais. Horácio Pereira não chegou movido por ambição pessoal nem por qualquer projeto de carreira. Entrou porque sentiu que era preciso defender a Misericórdia.
Em 1983, um amigo convenceu-o a integrar uma lista candidata aos corpos sociais. Queria ficar como suplente, longe das responsabilidades maiores, mas acabou nomeado tesoureiro. “Era o pior lugar de todos”, recorda.
Na altura, não imaginava que aquele passo discreto viesse a transformar-se numa missão de Ajudar é a recompensa Histórias com rosto décadas. Ao longo dos anos, viu a Misericórdia crescer, modernizar- -se e ganhar uma dimensão que poucos julgavam possível. Mas quando fala das obras realizadas, não começa pelos edifícios. Começa pelas pessoas.
Uma das memórias que mais o marcou foi o fim de um bairro de barracas junto a uma ribeira onde viviam cerca de vinte famílias em condições precárias. O realojamento dessas pessoas, através da construção de novas habitações, continua a ocupar um lugar especial na sua memória.
Também nunca esquece as visitas domiciliárias feitas antes de um internamento. Conhece praticamente toda a gente em Grândola e isso torna tudo mais próximo. “Há situações que nos tocam muito”, admite. Fala dos idosos frágeis, já sem força para pedir ajuda, mas cujo olhar diz tudo. Depois, vê-los instalados em segurança na Santa Casa é, para si, uma das maiores recompensas.
A obra física construída ao longo dos anos é extensa: novas cozinhas, refeitórios, unidades para grandes dependentes, serviços médicos, lavandaria, novas camas e, mais recentemente, a construção de uma nova ERPI. Mas Horácio Pereira insiste que a verdadeira obra está no conjunto e no reconhecimento conquistado pela instituição junto da comunidade.
Quem com ele trabalha sabe que o diálogo sempre foi a sua ferramenta principal. Foi assim que enfrentou crises financeiras, tensões políticas e resistências locais. Acredita que liderar uma Misericórdia exige entrega total, capacidade de gestão e, sobretudo, gosto genuíno por ajudar os outros.
Apesar da idade, continua a falar do futuro com entusiasmo. Os sonhos, diz, nunca acabam. Gostava de ser recordado “como uma pessoa simples”, alguém que nunca procurou benefícios pessoais, apenas servir quem mais precisava. E deixa uma preocupação aos mais novos: teme que o individualismo faça esquecer a importância da solidariedade.
No fim da conversa, volta ao princípio de tudo. Àquilo que considera ser o verdadeiro sentido da vida: “Nada nos faz mais felizes que ajudar um pobre a passar para uma situação em que nada lhe falte.”
Voz das Misericórdias, Rosário Silva