Natural de Reguengos de Monsaraz, Manuel Galante, hoje com 70 anos, esteve mais de 30 anos à frente da Misericórdia

Durante décadas, Manuel Galante foi a face visível da Misericórdia de Reguengos de Monsaraz. Mas, para quem conviveu com ele, o antigo provedor é, antes de tudo, um homem de fé, simples e comprometido, cuja vida foi marcada por desafios pessoais, trabalho árduo e uma dedicação silenciosa a quem mais precisava.

A infância de Manuel Galante não foi fácil. Cresceu numa família marcada por dificuldades e a separação dos pais, quando tinha 12 anos, obrigou-o a encarar cedo as responsabilidades da vida. Antes dos 13 anos já trabalhava numa mercearia, conciliando esforço e estudo através do ensino noturno. Apesar das adversidades, soube encontrar referências de apoio e solidariedade: uma senhora que o criou até aos sete anos, proporcionando-lhe cuidado e estabilidade, e um tio materno, mesário da Santa Casa, cujo exemplo de entrega desinteressada deixou marcas profundas.

A música e a fé foram alicerces do seu percurso. Depois de se afastar da igreja, regressou com intensidade através do coro paroquial, encontrando em Cristo um sentido ainda mais forte para a vida. Aos 14 anos iniciou um percurso de mais de três décadas numa fábrica de papel, onde o talento para desenho e a dedicação técnica lhe garantiram crescimento e responsabilidade. Mas foi na Misericórdia de Reguengos de Monsaraz que encontrou a verdadeira missão: servir a comunidade.

Em 1985 tornou-se vogal e, cinco anos depois, surpreendido, assumiu o cargo de provedor. Guiou a instituição durante décadas, expandindo respostas sociais, modernizando infraestruturas e criando oportunidades para pessoas de todas as idades e condições. Destaca- -se a recuperação do antigo hospital de Reguengos, transformado em lar residencial, e respostas sociais para pessoas com deficiência, um projeto que simboliza o seu empenho em deixar marcas duradouras na cidade.

Apesar das conquistas, cada passo exigiu esforço, resiliência e habilidade em negociação. Manuel Galante lembra que o desafio maior sempre foi garantir que famílias e utentes tivessem respostas efetivas e nada teria sido possível sem a dedicação de todos os colaboradores da Misericórdia.

Fora do trabalho, é um homem de paixões simples e criativas: a música, a fotografia e a bricolage ocupam grande parte do seu tempo. Hoje, dedica-se a organizar memórias, revendo fotografias que despertam nostalgia e gratidão e recordando rostos e momentos que moldaram a sua vida. Reconhece o valor insubstituível da família e dos amigos, mesmo quando conciliar tudo exigiu sacrifícios pessoais.

Olhando para o futuro, permanece atento às dificuldades das instituições sociais e ao impacto que os modelos de financiamento podem ter na continuidade da missão da Misericórdia de Reguengos de Monsaraz. Pessoalmente, quer partilhar os conhecimentos que acumulou ao longo da vida, transmitindo saberes e inspirando outros a seguir caminhos de solidariedade e serviço.

Para Manuel Galante, o legado mais importante não está em cargos ou títulos, mas na diferença que se consegue fazer na vida das pessoas. “Quero ser lembrado como alguém simples, que procurou ajudar e servir”, diz. Este é o homem por trás do provedor, guiado por princípios, fé e uma profunda preocupação pelo próximo, cuja história de vida continua a inspirar a comunidade que serviu com dedicação e coração.

Voz das Misericórdias, Rosário Silva