Há escritores que escrevem como quem aduba a terra: com cuidado, método e algum cálculo de quem prevê a colheita. E há outros que escrevem como quem acende um fósforo numa casa abandonada, prontos a incendiar o que for preciso, mesmo que seja o próprio destino.

Eduarda Chiote, residente da Casa S. Thomé, da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, pertence a estes últimos. Aos 95 anos, diz — quase com irreverência adolescente — que ‘Vira Bicho’ é o seu último livro. Mas diz também que não sabe bem porquê. Talvez porque escrever agora já não lhe dói da mesma maneira. Talvez porque, depois deste volume, já não haja como ir mais fundo.

Há em Eduarda Chiote uma clareza cruel sobre o caminho feito. Fala da escrita com a liberdade de quem nunca se dedicou a cultivar fachadas. A vida inteira recusou “o verniz social, as reverências inúteis, as mentiras gordas que a convivência educada costuma exigir”. Por isso, quando conta que uma grande editora lhe devolveu o manuscrito — “excecionalmente bem escrito, mas não nos interessa publicar este tipo de livros” — não se mostra magoada. Mostra-se, isso sim, perplexa com o jogo das vaidades literárias. Ela, que nunca se deixou engraxar pelo manto de “carreira” ou pela pompa de “obra”, diz sorrindo: “vanitas, vanitas, vanitas, que nos envolve a todos”.

Eduarda conta que o primeiro poema que escreveu era pornográfico — “tinha sete ou oito anos” e deixou o professor meio escandalizado. Ela ri-se enquanto recorda o episódio, talvez porque, mesmo tão pequena, já percebia o essencial: “que a escrita é um jogo perigoso entre inocência e risco. E que o poeta é aquele que, mesmo sem saber, está sempre com a cabeça na guilhotina. Se não tens coragem de a pôr, vai-te embora”, diz. E é impossível não acreditar nela.

A ligação ao Porto, a Lisboa e a Ovar surge de forma quase biográfica, como quem fala de três casas que não disputam lugar. Em Ovar, foi diretora de pessoal e fundadora do Centro Psicotécnico do F. Ramada, experiência que recorda com ternura e desconforto ético profundo. “Aplicava provas, avaliava pessoas, decidia destinos”. E, muitas vezes, o corpo protestava: “Sentia as mãos tremerem, como se a inteligência prática que avaliava fosse um espelho virado para si mesma. Eu queria que me esmagassem a mão. Para ver se aquilo fazia sentido”, conta. A literatura chegaria, também, como forma Escrever com liberdade Histórias com rosto de aliviar “essa culpa do olhar que distingue, separa, classifica”.

Lisboa foi o lugar dos jantares literários, dos encontros com Armando Silva Carvalho, Natália Correia, Helga Moreira e tantos outros que marcaram a poesia portuguesa. O Porto, o lugar dos afetos mais próximos, dos que hoje a empurram para a apresentação do livro mesmo quando o corpo fraqueja.

E há ainda aquele humor cru com que fala da velhice, como quem não pede desculpa pela longevidade. “Aos 95 anos querem ver a morte”, salienta. E depois, num lampejo de malícia: “Eu passo-lhe a rasteira”.

Mas o que espanta em Eduarda Chiote não é a sua idade, é a lucidez que atravessa tudo, como lâmina decidida. Diz que já não quer escrever mais. E ninguém acredita. Nem ela própria. Porque a escrita é o lugar onde sempre se salvou. “A escrita é o corpo que paga, como dizia Variações. É o lugar onde o raciocínio e a dor se casam numa claridade quase bruta, onde a generosidade toca a vaidade, onde a melancolia se mistura com a erotização subtil da palavra”.

Voz das Misericórdias, Paulo Sérgio Gonçalves