João Oliveira e Sousa foi provedor da Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos entre 2017 e 2026

A igreja da Misericórdia de Salvaterra de Magos esteve sempre do outro lado da rua. João Oliveira e Sousa cresceu em frente ao templo e habituou-se a ouvir em casa que era preciso preservar a história da terra e ajudar quem mais precisava. Hoje com 77 anos, assumiu em 2017 a provedoria da instituição. Saiu nove anos depois, deixando uma igreja recuperada e, acredita, uma Misericórdia mais próxima da população.

Antes de saber o que significava ser provedor, João Oliveira e Sousa já conhecia os cantos da igreja da Misericórdia. Em criança, atravessava a rua para entrar no edifício. Havia uma chave disponível e o templo transformava-se, por momentos, em território de brincadeira. “As escadas eram perigosíssimas. Hoje reconheço isso”, recorda.

A ligação vinha de casa. Segundo conta, o avô esteve ligado à reconstrução da igreja e foi também na família que recebeu a ideia de preservar a história local e manter viva uma ligação à Misericórdia. À dimensão patrimonial juntava-se outra aprendizagem. “Sempre fui ensinado a ajudar quem precisava”, afirma.

Nascido em 1948, fez a sua vida profissional como médico veterinário, mas nunca deixou de acompanhar a instituição, até que foi convidado para ajudar na administração da Santa Casa. Aceitou “praticamente sem hesitar”, embora reconheça que a responsabilidade não podia ser assumida de ânimo leve.

Como provedor, encontrou problemas administrativos e contabilísticos, assim como uma relação com a comunidade que sentia ser necessário transformar. Havia, diz, uma ideia enraizada de que a Misericórdia existia apenas para dar. Procurou inverter essa lógica.

A pandemia acabaria por ser um dos períodos mais exigentes. João Oliveira e Sousa recorda o esforço dos trabalhadores, os contactos com as autoridades de saúde e a preocupação em proteger os idosos.

Mas é na igreja que a passagem pela provedoria encontra a sua história mais simbólica. Sabia que as pinturas retiradas do teto estavam guardadas, muito degradadas, numa garagem do lar. Havia, contudo, outras peças cuja localização ninguém parecia conhecer. João Oliveira e Sousa lembrava-se de um quadro de onde saía uma haste de madeira. Não sabia exatamente o que procurava, mas iniciou a busca.

Um dia encontrou, atrás de um armário, a bandeira da Misericórdia. Era a peça que guardara na memória desde criança. Estava muito suja, mas sobrevivera. Ao retirar o que a rodeava para evitar mais danos, apareceram outras telas. Seguiu-se a investigação, com apoio especializado, que permitiu perceber melhor o que tinha sido encontrado e reconstruir a disposição e o significado das diferentes peças.

Quando hoje olha para a igreja recuperada, continua a ter dificuldade em traduzir a experiência em palavras. “Não sou capaz de descrever. Foi emocionante.” Mas recusa transformar o resultado numa obra pessoal. “Isto foi um trabalho da comunidade”, afirma.

Talvez por isso, quando lhe pedem que identifique aquilo que considera ter mudado como provedor, não escolhe uma obra concreta. Diz que a Misericórdia passou a ser sentida de outra forma pela comunidade. O objetivo sempre foi abrir portas e é nessa mudança que gostaria de reconhecer o legado da sua passagem pela provedoria.

Voz das Misericórdias, Filipe Mendes