“O ponto e a linha são os primeiros elementos do desenho”, diz Adão Conde, de quem se pode dizer que os dois primeiros elementos são o sorriso e a boina. Logo a seguir, será o desenho, fruto de uma “infância e adolescência sempre ligadas às artes visuais”. Nascido em Lisboa, em 1977, quando chegou a hora de escolher o curso superior decidiu- -se pela arquitetura, evitando caminhos mais abstratos aos olhos da família: “Design gráfico, isso é o quê?”
A partir daí, Adão construiu a sua vida numa lógica que compara à imagem de um compasso: “tens a ponta seca, que é a parte segura, e depois a outra parte pode brincar, andar à volta.” Deu os primeiros passos em ateliês de arquitetura no final dos anos 90, onde o “ambiente divertido” entre colegas coincidia com “uma absoluta loucura de trabalho”.
Abandonou o caminho como arquiteto após o colapso financeiro de 2008 e mudou a “ponta seca do compasso” para a área da política, onde nunca se tinha envolvido antes. Começou por acompanhar o Plano Diretor Municipal, a convite de um vereador do município de Vila Franca de Xira, e acabou por ficar como assessor de 2009 a 2017.
Ao longo destes anos manteve a sua prática artística em paralelo, a tal “ponta livre do compasso”, mas algo começa a mudar quando dá por si quase com 40 anos, “do género, já estamos a chegar a meio”, brinca. Nessa altura trabalhava ainda como assessor, mas uma breve interação com o filho de quatro anos a propósito de um desenho do pequeno Miguel despertou algo em si: “Às vezes começamos a trabalhar e vamos andando. A mim levou-me a lembrar qual era o meu elemento natural”.
De volta à estaca zero, ou às primeiras estacas: o ponto e a linha. Reencontrou o seu caminho no design gráfico, onde assentou nova base, e continuou com a ponta livre na ilustração, separando rigorosamente as águas entre exprimir-se artisticamente e corresponder ao pedido de um cliente.
É neste ponto da história de Adão que surge a ligação à Misericórdia de Vila Franca de Xira, que o contacta à volta de 2020 para criar um logótipo para a instituição, que se queria modernizar. O processo foi verdadeiramente um trabalho conjunto, como conta: “Foi numa reunião onde estava eu, o provedor, o vice-provedor e mais alguns mesários e estávamos todos Ponto e linha em movimento Histórias com rosto a desenhar, todos em brainstorm à procura de uma coisa, e surgiu ali na mesa. A ideia disto não é minha, eu dei forma.”
O resultado foi um logótipo com 14 linhas com sete cores, simbolizando “as sete obras corporais e as sete obras espirituais”, inseridas num heptágono (sete lados) “com o Espírito Santo em cima a coroar”. Tanto o processo como o resultado final são para Adão “a prova de que quando se consegue chegar aos clientes e há uma colaboração direta, as coisas resultam porque fazem sentido.”
“Desta brincadeira surgiu uma relação” que se mantém até hoje e é aqui que “o polivalente entra em jogo”. O designer gráfico que deu vida à nova cara da instituição, e que continua a prestar apoio em questões de imagem, é também o autor de ‘Shades of Dance’, um conjunto de telas que foi a primeira exposição na galeria Campus 7 Art, inaugurada em janeiro deste ano, no corredor de entrada da clínica FisioCampus, que integra o Campus de Saúde da Misericórdia de Vila Franca de Xira.
Voz das Misericórdias, Duarte Ferreira