José Fernando Mota. Nascido e criado em Jovim, Gondomar. Uma infância feliz, rodeado de irmãos, onde não faltou amor e educação. Com apenas dez anos começou naquela que seria a sua “arte”: ourives. Homem dedicado, trabalhou com afinco até concretizar o seu objetivo que era trabalhar por conta própria. Um sonho realizado aos 29 anos. Outros se seguiram. Viu a família crescer, construiu a sua própria casa, serviu a causa pública durante 12 anos como presidente da assembleia de freguesia. Homem íntegro e de valores, dedicou ainda parte da sua vida à carreira militar, regressando sempre à sua Jovim natal.
Pai e avô orgulhoso, a doença de Parkinson obrigou-o a uma reforma antecipada. Tinha 62 anos quando percebeu que não tinha condições para continuar. Em todo este tempo, a escrita não era uma presença. “Não me lembro de escrever… ou melhor, talvez apenas algumas cartas para uns amigos, quando queriam conquistar uma rapariga e não sabiam como o fazer”, recorda-nos, com sorriso maroto.
Foi no Centro Comunitário de S. Cosme, da Santa Casa da Misericórdia de Gondomar, que as palavras escritas começaram a brotar em forma de poema. Talvez porque, tal como afirma, “encontrei aqui uma segunda família”. O Sr. Mota, como é carinhosamente tratado, emociona-se. Não tem palavras suficientes para agradecer o carinho com que foi recebido, há cerca de três anos, na instituição. “A ajuda que me foi dada não tem preço, pois eu tenho a doença de Parkinson há cerca de 14 anos e tornei-me outra pessoa. Hoje, escrevo, faço poemas e, no fundo, tenho mais vontade de viver”, confessa.
E tudo começou por uma brincadeira, por altura do Natal. “Num dia bem-disposto, respondi em verso a uma funcionária. E depois outra e outra vez. Ficaram admiradas e assim comecei a escrever”. Os poemas por ocasião do São João, do Carnaval, Natal, de dias especiais ou de visitas do bispo à instituição não passaram despercebidos e o desafio de os compilar num livro aguçou a vontade de fazer sempre mais.
Adélia Jesus, responsável no Centro Comunitário de S. Cosme, prometeu um livro e não descansou até o conseguir concretizar. “Era uma promessa que tínhamos de cumprir, porque o Sr. Mota merece. Por tudo e por todo o carinho que manifesta por esta casa. Com o apoio de todos conseguimos concretizar este sonho no seu 83º aniversário”, conta. Um carinho que é recíproco, como podemos perceber nas palavras que o aniversariante lhe dirigiu e que aqui transcrevemos.
“Há uma pessoa muito especial na minha vida, tenho muita admiração por ela. Nós queremos sempre mais, mas também sabemos o quanto é difícil estar em todo o lado, ao mesmo tempo. Essa pessoa especial é a Dra. Adélia, essa mulher extraordinária que põe tudo em movimento. Quero-lhe agradecer e dizer-lhe que tenho por si um sentimento que se confunde, que é tão forte, que a palavra amizade é pequena demais para o que sinto. Essa palavra que se usa para tratar pessoas de família é, com muito respeito que eu a uso, a palavra amor e você está no meu coração. Obrigado. Quero também agradecer a todos que cá trabalham, todos que contribuem com o seu esforço para sermos bem tratados e cuidados.”
Voz das Misericórdias, Vera Campos