Depois das intempéries que afetaram Portugal, nas últimas semanas, e levaram à declaração de calamidade em 68 municípios, as Misericórdias estão focadas na recuperação dos estragos sem comprometer o apoio às populações. Desde que a tempestade Kristin entrou no território, a 28 de janeiro, as Misericórdias foram afetadas pelos cortes de energia, água e comunicações, queda de árvores e fecho de estradas, infiltrações e danos estruturais nos edifícios, sobretudo no distrito de Leiria, norte do distrito de Santarém, Alcácer do Sal, Coimbra, Portalegre e outras localidades. Neste período, o esforço dos trabalhadores, mesmo fora de horas, e a articulação permanente com as estruturas da proteção civil e autarquias foi essencial para assegurar o funcionamento das respostas sociais e acompanhamento próximo das populações.
Em meados de fevereiro, o presidente da UMP, Manuel de Lemos, admitiu ainda não ser possível avançar com um balanço aproximado dos estragos, mas adiantou que haveria "centenas de milhares de euros" de prejuízo nas Misericórdias, nem sempre cobertos na totalidade pelos seguros. Neste cenário, alertou para a necessidade de o Governo ser célere na atribuição dos apoios (ver caixa). O levantamento das necessidades no terreno tem sido acompanhado de perto pela União, através do vice-presidente Manuel Maia Frazão e dos Secretariados Regionais (SR) das regiões afetadas, de modo a agilizar este processo.
A solidariedade entre Misericórdias também se fez sentir, além-fronteiras, com a angariação e envio de bens para as zonas afetadas (Paredes, Seia, Avis, Mora, Vila Flor, Alcochete, Alvor, Coimbra, etc.); com a criação de um fundo pela Santa Casa de Lisboa, com a dotação de um milhão de euros (ver caixa); e com o donativo da Misericórdia de Macau, no valor de 300 mil euros (ver coluna), que o presidente da UMP interpretou como “um sinal profundo de união, fraternidade e compromisso”.
Leiria, onde os prejuízos já atingiram os 800 milhões, foi um dos locais mais fustigados. Na madrugada de 28 de janeiro, rajadas de 142km/h arrancaram coberturas da Residencial XXI, do Lar Nossa Senhora da Encarnação e do edifício-sede da Santa Casa. Mas, apesar dos danos nos telhados, fachadas e infiltrações de água, o provedor Carlos Poço garantiu que em “nenhum momento a segurança dos utentes esteve em causa”. Para tal, foi determinante o “sentido de responsabilidade e espírito de missão de todos os trabalhadores que, desde as quatro da manhã de 28 de janeiro e, de forma ininterrupta, demonstraram um compromisso exemplar”, além da articulação com o município, proteção civil, bombeiros, segurança social e empresas.
Nas primeiras horas, só compareceram quatro dos 12 funcionários do turno da manhã, no lar, devido a bloqueios nas estradas e danos severos em casa. Os restantes foram substituídos por colegas, que se prontificaram a ajudar. “Nós, técnicos, fomos para o terreno e conseguimos arrancar, com serviços mínimos, enquanto as pessoas foram chegando”, recordou Diogo Batalha, coordenador geral. O maior desafio foi nas 48 horas seguintes, quando um dos geradores deixou de funcionar. “Na segunda noite (29) ficámos sem água e luz e tivemos de pôr mais pessoas ao serviço e na sexta (30) pedimos ajuda aos bombeiros para abastecer os depósitos de água”. Ao sexto dia, a preocupação era pagar salários em atraso, decorrentes de avarias informáticas, e ir para o terreno fazer levantamento das necessidades e acionar meios.
Em Ferreira do Zêzere (norte do distrito de Santarém), onde 85% das habitações sofreram danos, o provedor Luís Pereira revelou terem vivido “aflições muito grandes” enquanto não conseguiram cobrir os telhados. “Entrou muita água e tivemos de transferir cerca de 40 idosos para o edifício da creche. A prioridade máxima era o bem-estar deles, o que só foi possível graças ao sacrifício da equipa, que foi excecional e trabalhou noite e dia”, reconheceu a 2 de fevereiro, data em que foi finalmente possível transferir os idosos de volta para o lar.
Alvaiázere, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Marinha Grande, Pombal e Rio Maior são outros dos concelhos abrangidos pela situação de calamidade, na sequência de danos extensos em infraestruturas, queda de árvores e avarias na rede elétrica e de comunicações.
Ao VM, o presidente do SR de Leiria e provedor da Santa Casa de Pombal, Joaquim Guardado, revelou que o maior constrangimento, numa fase inicial, foi a “falta de eletricidade, água e comunicações, falta de mão de obra para arranjar telhados, dificuldade de circulação devido à queda de árvores nas estradas e isolamento dos idosos, atenuado pela família e instituições”.
“A situação aqui está caótica”, revelou a 2 de fevereiro a vice-provedora da Marinha Grande, Ana Amaral, referindo-se a “estragos estruturais, falhas no acesso de água e luz em vários edifícios”. Seis dias após a tempestade, a confeção de refeições estava centralizada na unidade de cuidados continuados, após o telhado da cozinha, num dos lares, ser arrancado pelo vento.
Por estes dias, as lonas e geradores foram bens essenciais para suportar uma aparente normalidade. Em Figueiró dos Vinhos, apenas a unidade de cuidados continuados tinha gerador, remediando-se a situação no lar com “velas e lanternas”, partilhou o provedor. Por sua vez, em Alvaiázere e Alcanede foi necessário pedir geradores emprestados para os lares. Neste cenário, a provedora Adelaide Santos (Alvaiázere) constatou a “urgência da aquisição, adiada até ao momento pela falta de verbas”. Comentando esta necessidade, a presidente do SR de Santarém, Maria José Figueiredo, reconheceu que “a maior parte das Misericórdias precisava de meios para comprar geradores e não estar dependente de terceiros. É o que estamos a pensar fazer em Rio Maior”, revelou.
Mas, mesmo com geradores, só a entreajuda garantiu que os constrangimentos fossem ultrapassados. “Oferecemos tomadas para carregar telemóveis, arcas congeladoras para guardar comida e os populares juntaram-se para reabrir estradas e consertar telhados”, revelou Célia Afonso, responsável de recursos humanos da Santa Casa de Sarzedas.
Depois da chuva, as cheias
Depois das tempestades, as preocupações centraram-se nas cheias, como consequência da chuva persistente, que fez aumentar a quantidade de água nos rios e barragens. Na cidade de Alcácer do Sal, distrito de Setúbal, os edifícios junto ao rio Sado estiveram debaixo de água, desde 4 de fevereiro, inundando as duas únicas farmácias a funcionar no centro da cidade.
“A nossa farmácia ficou completamente destruída, prevendo-se um prejuízo de 250 a 300 mil euros, entre mobiliário, equipamento informático, alarmes e medicação”, lamentou o coordenador geral da Santa Casa, Ricardo Cipriano, sendo por isso necessário abrir uma farmácia temporária, numa zona alta da cidade. A isto, acrescem danos em duas propriedades, que “são, no fundo, os pilares financeiros que sustentam a atividade social”.
A subida das águas também obrigou a evacuar lares, em Mértola e Alhos Vedros. Na primeira, foi necessário transferir “os idosos, em poucas horas, de Mértola para o lar de São Miguel, a trinta quilómetros, sem saber por quanto tempo”, recordou a diretora técnica Ana Cristina Colaço, adiantando que por ser um espaço desconhecido e mais amplo implicou reajustar rotinas de trabalho. Na primeira noite (4 de fevereiro), ninguém foi à cama para preparar o dia seguinte, mas com boa vontade de todos conseguimos assegurar a logística e manter os cuidadores de referência”. Dois dias após o regresso a casa, o provedor José Alberto Rosa reconheceu que foram “todos excecionais”, destacando, além do papel da equipa, a articulação com a autarquia, bombeiros, instituições locais e Misericórdias do distrito, que ofereceram ajuda. Neste período, os comunicados diários nas redes sociais transmitiram segurança às famílias.
Na noite de 5 de fevereiro, foi a vez de Alhos Vedros. “Tivemos de evacuar 60 utentes do Lar Abrigo do Tejo e redistribui-los nos outros dois lares e unidade, mas tivemos a ajuda de familiares que levaram 20 para casa, assim como dos colaboradores, que foram incansáveis e permitiram que tudo corresse tranquilamente, sem perturbar os utentes”. Mais uma vez, neste caso, a presença dos cuidadores de referência foi essencial na estabilidade dos idosos.
Depois das chuvas e ventos, que abalaram estruturas, os deslizamentos de terras vieram causar ainda mais danos em Coimbra. Afastada a possibilidade de evacuação do centro, a preocupação da Santa Casa centrou-se na cerca de Santo Agostinho (antigo Colégio de S. Agostinho), que colapsou parcialmente e forçou a retirada temporária de sete pessoas e o encerramento do mercado municipal. “Estamos a falar de património muito delicado, em zona de proteção da Unesco, cuja intervenção obriga a muitos estudos e planeamento. Mas vamos congregar esforços de várias entidades para salvaguardar a segurança e, quem sabe, reabrir o espaço à comunidade e torná-lo num jardim público”, revelou o coordenador geral Joel Araújo.
Apesar das dificuldades sentidas, as Misericórdias mantiveram-se atentas à comunidade, disponibilizando, em Castanheira de Pêra, camas no lar para apoio a pessoas com apneia do sono, dependentes de máquinas, e, na vila de Odemira, dando abrigo ao centro de saúde, cujo acesso estava bloqueado pela água, “cumprindo três obras de misericórdia: dar pousada aos desabrigados, assistir aos enfermos e acudir os aflitos. Mais uma vez, a prova que as Misericórdias se reinventam e são necessárias”, confirmou o provedor Francisco Ganhão.
Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas