Às segundas-feiras, o lar da Misericórdia de Vinhais enche-se de música, com os utentes a cantarem, a tocarem instrumentos e até a dançarem, através do projeto ‘Melodias da Memória’

Os inícios das semanas começam agora de forma mais animada na Santa Casa da Misericórdia de Vinhais. A instituição abriu as portas ao projeto ‘Melodias da Memória’, desenvolvido pelo município, que consiste em aulas de música para os utentes do lar da instituição, às segundas-feiras de manhã.

O professor de música leva uma concertina ao peito, mas não vai de mãos a abanar. Numa caixa, carrega vários instrumentos que são distribuídos pelos idosos, que anseiam por aquele momento.

Acácio Rodrigues ficou com o bombo. Tem 86 anos e sentado ao lado da sua esposa, que segura uma pandeireta, foram tocando músicas que marcaram a sua vida. “Acho bom, muito divertido. No outro dia ainda esteve melhor, porque as raparigas saltavam”, disse, lembrando-se dos tempos em que também ele “dançava muito” com a mulher.

A música sempre esteve na sua vida. Foi funcionário na Marinha Grande, mas quando regressou a Vinhais formou um grupo que animava festas. Com a pandemia, acabou por entregar o projeto a outro membro, mas a sabedoria musical não a esqueceu. “De música gosto sempre. Por exemplo, vou daqui para Lisboa no carro sozinho, levo a música gravada por mim lá no carro, é como se fosse uma pessoa”, contou, salientando que gosta de ouvir “música alegre”.

Por ele, o professor poderia ir mais vezes, não se importava nada. Nem ele, nem Heitor Barreira, de 87 anos, utente da Misericórdia há cinco. Se não fossem as aulas de música, a segunda-feira seria passada como outro dia qualquer, “deitado num sofá”, “acordado ou a dormir”, o que admite ser “uma tristeza”.

Assim, a sua manhã foi passada a cantar, a tocar e até a dançar, porque não poupou as pernas, quando a música do “apita o comboio” encheu de felicidade os corações dos utentes.

“Esta atividade fica-me no coração, porque gosto muito. Dá para matar saudades e a gente que tenha a fraqueza de estar aqui e não haver um distraimento, para mim fica-me cá dentro”, disse emocionado, da Área Metropolitana de Lisboa apontando para o peito.

Segundo o diretor da Misericórdia de Vinhais, José Alves, este tipo de iniciativas são uma “mais-valia” para os idosos, porque os deixa “mais felizes”, “mais animados” e também por lhes relembrar “algumas vivências”.

O impacto do projeto é também visível, de acordo com o diretor, no envolvimento dos utentes que raramente querem participar em atividades. “Eu vejo muitos utentes que passam o dia sem participar numa grande parte das atividades realizadas pela Misericórdia, mas neste dia é uma autêntica festa”, referiu.

O propósito do projeto ‘Melodias da Memória’, que envolve todos os lares do concelho de Vinhais, além da Misericórdia, também as instituições de Rebordelo, Espinhoso, Vila Boa, Ervedosa, Agrochão e Moimenta, é proporcionar “um dia mais feliz e diferente” aos idosos.

“Esta atividade parece-nos importante porque, como se vê, é um dia de alegria para eles e é reviver algumas canções, alguns momentos que usufruíram noutro tempo”, disse o presidente da Câmara Municipal de Vinhais, Luís Fernandes.

Esta é uma das medidas do município para proporcionar o envelhecimento ativo na localidade. “Estamos num concelho envelhecido e num país envelhecido e entendemos que são importantes estas medidas para proporcionar atividades diferentes que os animem, que ajudem a diminuir o isolamento e que lhes permitam ter um envelhecimento mais ativo”, afirmou o autarca, acrescentando que é “fundamental” o envolvimento com os idosos e a articulação com as instituições.

Este projeto estará em vigor durante os próximos quatro anos, tempo de duração do mandato.

Recorde-se que a Misericórdia de Vinhais acompanha diariamente mais de 250 pessoas, contando para o efeito com cerca de 60 trabalhadores.

Voz das Misericórdias, Ângela Pais