O Alentejo enfrenta hoje desafios complexos, onde vulnerabilidade e exploração caminham lado a lado. A descoberta recente de imigrantes explorados em pleno Baixo Alentejo trouxe à tona problemas estruturais: a chegada de pessoas sem apoio ou enquadramento aumenta o risco de abuso e marginalização.

“Precisamos dos imigrantes. Precisamos porque precisamos de gente que trabalhe, que cuide das pessoas”, afirma, a este respeito, Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), lembrando que Portugal atravessa “30 anos seguidos sem renovação de gerações”.

À margem da Peregrinação Jubilar das Misericórdias da Arquidiocese de Évora, que decorreu na capital do Alentejo Central, o responsável considerou que a integração destes trabalhadores estrangeiros é uma prioridade humanista e estratégica. De resto, a UMP, em colaboração com o Estado, está já a desenvolver ações de formação em língua portuguesa, programas de cidadania e iniciativas que ajudam os imigrantes a compreenderem a cultura local. “Se nós, na terra deles, respeitamos os costumes deles, aqui eles também têm de aprender a respeitar os nossos”, explicou, destacando que a inclusão é a base para que os novos residentes se tornem parte da comunidade de forma digna e segura.

Olhar para as pessoas como pessoas

 Também Manuel Caldas de Almeida, presidente do Secretariado Regional de Évora da UMP, sublinha que proteger os trabalhadores estrangeiros significa garantir direitos, regras e dignidade. “O que não se pode tolerar é a ilegalidade e a indignidade”, diz, lembrando que a falta de enquadramento abre espaço para redes criminosas explorarem pessoas vulneráveis.

Mesmo perante a chegada acelerada de novos residentes, que provocou episódios de abuso, o também provedor da Santa Casa da Misericórdia de Mora reafirma: “Olhamos para as pessoas como pessoas”, integrando-as nas Misericórdias com condições dignas e direitos iguais aos dos trabalhadores portugueses. A responsabilidade, enfatiza, é de todos: “Não podemos ser coniventes com situações que levam a tratamentos indignos.”

Na mesma linha, o arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, reforça a necessidade de uma política nacional clara. “Não estamos distraídos, bem pelo contrário”, afirma, pedindo que o acolhimento combine regulamentação e critérios firmes, para garantir proteção às comunidades e impedir degradação ou violência. “Não um acolhimento que leve à violência e à própria degradação das comunidades que chegam, mas um acolhimento com a qualidade que aqueles que chegam merecem”, conclui.

Misericórdias, a ponte entre solidariedade e fé

No meio deste contexto social e humano, a fé permanece como fio condutor e para o demonstrar publicamente, o prelado convidou as Misericórdias para o que designou de Peregrinação Jubilar da Arquidiocese de Évora, que reuniu irmãos, colaboradores e dirigentes num gesto simbólico de compromisso e serviço.

“Se o Ano Santo significa a bondade do coração de Deus, as Misericórdias são um reflexo dessa bondade”, afirmou, na ocasião, D. Francisco Senra Coelho, destacando o papel destas instituições no cuidado a crianças, idosos, pessoas com deficiência e tantas outras valências. Para o arcebispo, há séculos, as Misericórdias representam “uma grande marca de humanidade e solidariedade” no país.

Por sua vez, Manuel de Lemos destacou a importância histórica das Misericórdias e “o papel fantástico que desempenham”, sobretudo num tempo marcado por desafios sociais, de que é exemplo a integração de imigrantes.

Voz das Misericórdias, Rosário Silva