Esta peça integra o destaque da edição de junho do Voz das Misericórdias sobre arquivos. Leia aqui a peça principal e os outros artigos sobre os arquivos das Misericórdias de Arcos de Valdevez, Ponte da Barca e Ponte de Lima.
A história da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço começou em 1516, mas só em 2016, por altura da preparação dos festejos dos 500 anos, se descobriu que testemunhos guardava. O arquivo não era extenso, mas o espaço onde estava ‘arrumado’ não lhe fazia jus.
Os documentos “encontravam-se armazenados na antiga sala do consistório, anexa à igreja da Misericórdia, em condições inadequadas de conservação, com elevados níveis de humidade, fraca ventilação e ausência de medidas de preservação apropriadas”, conta- -nos o provedor Jorge Ribeiro.
Entre os registos, há história do concelho, desde o século XVI até finais do século XX, como afirma Jorge Ribeiro, promotor deste levantamento de arquivo e alguma análise investigativa.
“No rol de analisados, para já, constam o Alvará Régio e o Compromisso da Misericórdia (edição de 1516), já restaurados, livros de atas, registos de provedores, livros de receita e despesa, documentação hospitalar, processos de beneficência, correspondência, registos do Asilo Pereira de Sousa, entre outros. Importa destacar que este acervo constitui o único conjunto de registos históricos existentes em Melgaço, relativos ao próprio concelho, com origem nos séculos XVI e XVII, sendo, por isso, um património documental de valor ímpar para o estudo da história local e regional”.
Apesar do interesse patrimonial dos documentos, ainda não tinha havido qualquer incursão de historiadores e investigadores na história da Misericórdia de Melgaço. Em 2016, e no âmbito da preparação do programa alusivo aos 500 anos da instituição, o professor e investigador melgacense Valter Alves traçou, com base nos documentos que foram sendo resgatados da sala do consistório, a primeira obra de fundo. É, até ao momento, a única obra resultante da análise ao arquivo.
A segunda edição, revista e aumentada em 2022, traça um retrato essencial da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço e é “um importante marco na sistematização da história da instituição”, afirma o provedor. Contudo, reconhece Jorge Ribeiro, “o arquivo conserva ainda muitas dimensões da vida da Misericórdia por explorar, abrindo caminho para novos estudos e publicações”.
Sem condições para iniciar um processo de recuperação e acondicionamento como Arcos de Valdevez, Melgaço confiou o espólio à Câmara Municipal, a quem coube os procedimentos de acondicionamento e, ao ritmo que se vá justificando, a digitalização dos documentos.
“A recuperação dos documentos e espólio sacro exigiu intervenções técnicas especializadas. Na componente documental, realizaram-se ações de conservação preventiva, desacidificação, estabilização e reencadernação. No espólio artístico, como as bandeiras processionais e a tela do século XIX, foram aplicadas técnicas de restauro adequadas, com apoio do Fundo Rainha D. Leonor”, notou Jorge Ribeiro.
A análise agora entregue aos serviços municipais permitirá conhecer os momentos registados, mas sabe-se que tem informações pertinentes sobre a atuação da Misericórdia “durante crises epidémicas, períodos de conflito político, reformas hospitalares e transformações sociais ao longo dos séculos”.
Enquanto concelho fronteiriço, há registos de acontecimentos de relevo da história local e nacional. “Merece particular destaque a Guerra da Restauração (1640–1668), durante a qual Melgaço foi alvo de incursões por parte de tropas espanholas. A documentação revela que a Misericórdia desempenhou um papel crucial no socorro e tratamento dos feridos, civis e militares”, destaca Jorge Ribeiro.
Voz das Misericórdias, João Martinho