Para assinalar o Dia Internacional dos Arquivos, celebrado a 9 de junho, o VM viajou pelos arquivos das Misericórdias do Alto Minho, para dar a conhecer alguns dos atores que têm resgatado memórias relevantes para a história nacional

Esta é a peça principal do destaque da edição de junho do Voz das Misericórdias sobre arquivos. Leia os outros artigos sobre os arquivos das Misericórdias de Arcos de Valdevez, Melgaço, Ponte da Barca e Ponte de Lima.

Para assinalar o Dia Internacional dos Arquivos, celebrado a 9 de junho, o VM viajou pelos arquivos das Misericórdias do Alto Minho, para dar a conhecer alguns dos atores que têm resgatado, dos livros esquecidos em armários esconsos, muito mais do que os Compromissos e relatórios de contas. Numa corrida contra a degradação do papel e a perda de memória institucional, as Misericórdias de Arcos de Valdevez, Melgaço, Ponte de Lima e Ponte da Barca estão apostadas em preservar um património arquivístico que conta a história de cada uma dessas comunidades.

Marta Lobo de Araújo, docente e investigadora do Departamento de História da Universidade do Minho, publicou em 2007 o seu primeiro trabalho sobre os arquivos das Misericórdias do Alto Minho, onde destacou “os seus efeitos na valorização e preservação da sua memória escrita”, apesar dos “conflitos bélicos” inerentes à região fronteiriça que, não raras vezes, puseram em risco o seu desaparecimento quase total. “O impacto das guerras deixou marcas profundas nestas instituições, que, conhecendo a importância da sua memória escrita, passaram a usar estratégias preventivas em situações similares”, explica a investigadora.

Os cronistas da vida das Santas Casas escreviam para seu próprio conhecimento e memória, mas também para o futuro. A professora Marta Lobo nota que o reconhecimento do valor destes registos estava ao alcance de poucos, já que, “nos meios mais pequenos, eram poucos os que apresentavam competências nas áreas da escrita e da leitura e em várias Misericórdias alguns irmãos não sabiam ler nem escrever”. Acresce que “a constituição do arquivo estava muito dependente do funcionamento de cada uma das instituições, das ações que desenvolvia e das práticas que adotava no seu dia a dia”, notou ainda a professora.

Os conflitos bélicos foram a desculpa perfeita para algumas das lacunas, mas para Marta Lobo há uma quota parte de “incúria humana” no processo. Afinal, já há quase 510 anos que as orientações das Misericórdias, através dos compromissos assinados por D. Manuel I, recomendavam “efetuar registos escritos e os livros que deveriam ter para esses mesmos assentos”.

Com o passar do tempo e a afirmação de algumas Santas Casas, a literacia e a obrigatoriedade dos livros trariam uma aparente melhoria nos registos, mas, em vez disso, criaram-se volumes propícios à feira de vaidades, à parcialidade dos registos e até ao ‘roubo inadvertido’ destas histórias da História.

“Embora os compromissos determinassem que somente o escrivão podia registar os assuntos nos respetivos livros, o que significava um controlo apertado sobre este irmão, assim como uma grande responsabilidade, em algumas destas instituições minhotas, o tesoureiro também efetuava assentos nos livros de receita e despesa. Porém, na ausência do escrivão, um mesário podia substituí-lo, registando em cadernos os assuntos que, posteriormente, seriam passados pelo escrivão para os respetivos livros”, explica. Era fiável? Talvez não.

“Entre a teoria e a prática vai um caminho feito por descaminhos, que nem sempre abonaram em favor da preservação da memória escrita. Irmãos que acediam aos livros sem consentimento, escrevendo e deixando neles menções a seu bel prazer, livros que eram levados para casa e que nunca mais regressaram, papéis soltos e livros que foram deitados fora como se não interessassem, nem estivessem repletos de significado institucional e histórico. Quem conhece e trabalha nos arquivos históricos das Misericórdias sabe que tudo isto aconteceu”, confidencia Marta Lobo, para quem “perder um livro destes significou perder um século ou mais de história”. Ainda segundo a professora da Universidade do Minho, só “em finais do século XX” começa a surgir uma verdadeira “consciencialização” para o valor e preservação deste património.

Na história de uma instituição com mais de 500 anos, é uma pequena porção da sua vida e um contrarrelógio na salvação do documento em papel. “Os gestores das Misericórdias, de um modo geral, estão muito mais sensíveis para a sua preservação, bem como muito mais sabedores da sua importância, não somente para a instituição, mas para toda a comunidade”, considera a investigadora.

Marta Lobo admite que a história das Misericórdias portuguesas já não é só do seu domínio, mas um assento importante da população ao longo dos últimos cinco séculos. “Este património não pertence somente às instituições que o construíram e tutelam, é um bem coletivo, por conter informações de gerações e gerações, que ao longo dos séculos estiveram de alguma forma em contacto com as Misericórdias, fosse nos seus hospitais, nas cadeias que elas assistiam, na roupa e géneros alimentares que distribuíam, nos mortos que enterraram, nas instituições femininas e masculinas que geriram, nos asilos, creches e lares que coordenaram ou coordenam, enfim, em todas as atividades que desenvolvem estas relevantes instituições sociais”, esclarece.

“A grande maioria das Misericórdias do Alto Minho são quinhentistas”, explica Marta Lobo. Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca, Monção, Arcos de Valdevez, Vila Nova de Cerveira, Valença, Caminha e Melgaço têm Misericórdias erigidas durante o século XVI. Contudo, nem todas guardam um arquivo completo, perfeito, nem imparcial, mas vale apontar alguns exemplos.

“Em Ponte de Lima quase nada se perdeu. A Misericórdia que provavelmente foi fundada em 1530 possui um importante recheio documental, com séries completas ou quase, de receita e despesa, de atas da Mesa, do Definitório, da Assembleia de irmãos, de doentes, de tombos, de defuntos, de livros de notas, de cobranças de pensões, de correspondência, nomeadamente com as Misericórdias do império, principalmente do Oriente, e com a de Lisboa, etc., detendo documentação para todas as áreas de atuação”, frisou.

“A preservação desta documentação está diretamente relacionada com as medidas que os irmãos foram tomando ao longo dos séculos. Em 1654, durante a guerra da Restauração, os confrades limianos decidiram que o cartório fosse metido num cofre, ajudando na sua preservação”. Para Marta Lobo, a importância deste arquivo justifica-se pelo facto de nele constar “muita da história local, regional e nacional, mas também internacional. Os ecos das guerras, bem como a emigração sentem-se nestas instituições”.

Sobre o trabalho que está a ser desenvolvido em Arcos de Valdevez, a historiadora refere que está “atualmente sujeito a um novo olhar”, fazendo também a sua corrida contra o tempo para salvar o que chegou ao século XXI em condições de reparação, mas não escapou, ao longo da sua história, a uma “grande delapidação”.

Ainda segundo Marta Lobo, Ponte da Barca e Melgaço também foram vítimas de perdas de documentação. “Estamos perante instituições de menores dimensões quando comparadas com a sua congénere de Ponte de Lima. O arquivo de Melgaço é pequeno, com falta de alguma documentação, mas a existente encontra-se razoavelmente preservada. A documentação existente sobre eleições na Misericórdia de Ponte da Barca é rica e até rara, por conter os resultados desses processos, com o número de votos por confrade, permitindo conhecer e analisar processos internos”, analisou Marta Lobo.

Voz das Misericórdias, João Martinho