“Oitopia” é o nome da exposição promovida pela Misericórdia de Bragança, no âmbito da celebração dos 500 anos de vida da instituição.

Ao atravessar a soleira do Museu Etnográfico Belarmino Afonso, os passos dos visitantes são perscrutados por uma respeitável pia de ferreiro, com meia tonelada granítica. Ao seu redor há mais de 30 obras de diferentes artes plásticas – desenho, pintura, escultura, grafismo digital, arquitetura. E foi desse diálogo quase impercetível que nasceu “Oitopia”, uma exposição coletiva integrada no programa comemorativo do 500º aniversário da Misericórdia de Bragança.

“A ideia era aproximar diversas técnicas e mostrar a força dos artistas que têm uma ligação forte a Bragança. É também a nossa afirmação em relação ao panorama cultural da cidade”, revela Joaquim Cavalheiro, curador e responsável pelo museu.

Aos olhos do provedor Eleutério Alves, a exposição é “uma prova clara de que Bragança tem artistas de elevado valor e que é necessário dar-lhes projeção”. Em paralelo, permite “dinamizar o museu como um local que está vivo e que quer receber públicos alargados que possam apreciar estas obras de arte e, ao mesmo tempo, usufruir de um espaço etnográfico com profundas raízes na cultura do mundo rural, dos nossos pais e avós”. “Esta é uma casa de todos para todos”, frisa. 

“Oitopia” reúne trabalhos de Amável Antão, Ana Domingues, Cala, Joaquim Cavalheiro, Luís Barata, Marco Costa, Mário Ortega e Miguel Moreira e Silva, desafiando o binómio continuidade-rutura. “A pia inamovível marca o eixo da sala e está ligada nesta viagem utópica que vai desvendando as interações entre peças que não se relacionariam naturalmente. A pia é, também, uma maneira de o visitante não se esquecer que está num museu etnográfico”, explica o curador.

Arquiteto de profissão, Mário Ortega expõe três trabalhos, sendo que um se tornou o ícone de “Oitopia”. Trata-se de uma maquete que procura desvendar “a componente abstrata” da fachada de um edifício. “É um preconceito achar que o trabalho do arquiteto é muito prático e objetivo, em que se faz um risco e isso corresponderá a um elemento – uma parede, uma porta. Se semicerrarmos os olhos, os elementos descolam-se da arquitetura e passam a ser estéticos, plásticos. Com esta maquete, pretendo levantar a ponta do véu desse processo criativo”, conta.

A mostra começou a ser preparada em julho e os artistas tiveram total liberdade para criar, sem as amarras de uma temática. Depois, coube a Joaquim Cavalheiro encontrar uma narrativa. “Como nunca tinha exposto, decidi juntar as minhas aguarelas, que, em alguns casos, serviram como elo de ligação, fazendo uma pára-arranca entre técnicas tão diferentes”. 

Bastou um telefonema para Cala pegar nos pincéis e produzir dois óleos ao seu estilo. “Pinto sempre a volúpia nas coisas mais simples: como uma pessoa pode sentir prazer a comer, a conversar ou a ver uma tela, estando sempre presente a figura feminina misturada com a natureza”, revela. 

Desde 1990 a viver em Bragança, Cala vê esta iniciativa da Misericórdia como “muito boa”, porque “as pessoas precisam de ver e experimentar coisas diferentes, que exaltem os sentidos”. Inaugurada a 25 de outubro, a exposição é gratuita e pode ser visitada até fim de fevereiro.
Arte a criar proximidade

Todos os artistas de “Oitopia” estão ligados à cidade transmontana, seja porque esta lhes serviu de berço ou lhes ofereceu trabalho e é como se fossem filhos da terra. Estimular um ponto de encontro é um objetivo que tem vindo a ser cumprido. “Há poucas iniciativas que façam com que os artistas dialoguem uns com os outros e se conheçam. Esta exposição podia ser um bom ponto de partida para encetar uma rede de ligação entre os vários artistas”, afirma o brigantino Mário Ortega. 

Também o conterrâneo Luís Barata assume que “é muito importante participar em exposições que concentram trabalhos de tanta qualidade e poder figurar ao lado de artistas que representam o que de bom se tem feito nas artes plásticas na região”. O designer encara, por isso, o papel da Misericórdia de Bragança enquanto promotor de cultura como “muito positivo, considerando que a iniciativa cultural na cidade não é particularmente intensa e que esta não é uma área com muitas portas abertas para quem quer mostrar o trabalho que tem vindo a desenvolver”.

Para já, Joaquim Cavalheiro espera “algumas reações da comunidade”, perspetivando que “Oitopia” possa conhecer o lado da itinerância. “Vamos ver se realmente funciona e, depois, a Santa Casa de Bragança poderá propor essa ideia à UMP”.

Voz das Misericórdias, Patrícia Posse