A exposição ‘Filhos de todos…Filhos de quem? – Os expostos da roda de Lisboa’ convidou a uma reflexão sobre abandono infantil e proteção social

Os sinais das crianças expostas da roda de Lisboa estiveram em destaque no Museu de São Roque, entre novembro de 2025 e maio de 2026, no âmbito de uma candidatura ao Registo da Memória do Mundo da UNESCO, coordenada pela Santa Casa de Lisboa. Vista por mais de 21 mil pessoas, a exposição ‘Filhos de todos…Filhos de quem? – Os expostos da roda de Lisboa’ convidou a uma reflexão sobre o abandono infantil e o sistema de proteção social, numa curadoria que humanizou o arquivo, explorando as dimensões da memória e identidade.

A exposição partiu do espólio de cerca de 90 mil "sinais de expostos" (1658-1939), conservado no arquivo histórico da Santa Casa, destacando-se pela sua abordagem (ver caixa) e objetivo de divulgar um “acervo documental e patrimonial de valor histórico, social e emocional, com relevância universal”, revelou a equipa responsável pela exposição e candidatura: Helena Mantas, historiadora do Museu de São Roque, Francisco d’Orey Manoel, diretor do arquivo histórico, e Nelson Moreira Antão, técnico superior de arquivo, numa visita guiada com o VM.

Em Lisboa, cerca de metade das crianças dava entrada no Hospital dos Expostos acompanhada de um documento escrito, chamado sinal de exposto, na expectativa de um reencontro. A estes bilhetes, os progenitores podiam juntar pedaços de tecido ou objetos como medalhas, pagelas, rosários, joias, bilhetes de lotaria, páginas de livros, certidões de batismo, desenhos de bebés, tranças de cabelo da mãe ou fotografias do pai. Em suma, elementos que identificam a criança ou que remetem para o afeto dos pais e objetos que simulam origens nobres para garantir um tratamento especial. Nalguns casos, deixavam ainda uma certidão de pobreza ou atestado de doença, que justificava o abandono.

“Isto não é só um papel, está aqui com uma intenção e segundo sentido, tem de ser analisado como uma radiografia. Estes sinais são vidas concretas de pessoas, situações muitas vezes complicadas, que refletem contextos sociais e políticos”, detalhou Francisco d’Orey Manoel.

Em Portugal, a proteção dos expostos foi confiada aos concelhos, mas em centros urbanos como Lisboa a responsabilidade foi entregue, a partir de 1768, à Santa Casa, que cria o Hospital (ou Real Casa) dos Expostos. Este sistema assistencial procurava evitar o infanticídio e era uma solução legítima no mundo ocidental, perante a ausência de respostas alternativas.

A roda era uma estrutura cilíndrica, instalada numa parede, que garantia o anonimato dos progenitores. Ao ouvir a campainha, a ama rodeira recolhia o bebé e prestava- -lhe os primeiros cuidados, dando início a um sistema complexo com vários intervenientes: amas rodeiras e internas, padres que batizavam, médicos, pessoas que transportavam os bebés para as amas externas, mestres que ensinavam um ofício aos jovens, inspetores que avaliavam a assistência prestada e pagavam às amas e escriturários responsáveis por documentação variada.

“De alguma forma, procurámos homenagear estas figuras e, em particular, todas estas mulheres que, ao longo do tempo, asseguraram este cuidado às crianças, desde as mães, que sofrem com a separação, às amas que cuidam”, enalteceu a curadora Helena Mantas.

Embora pareçam contraditórias, a ideia de proteção e abandono relacionam-se nesta narrativa uma vez que deixar a criança na roda significava proteger de uma situação de infortúnio e pobreza extrema e, por vezes, até libertar da escravatura. “Mesmo que fossem filhos de escravos, e sendo por inerência escravos, ao serem colocados na roda estavam automaticamente livres, eram filhos da misericórdia”, revelou Nelson Moreira Antão.

Na maioria dos casos, os pais ficavam com um documento idêntico ao sinal, designado de contrassinal, que permitia validar a correspondência e comprovar a paternidade. Mas só muito raramente os pais conseguiam recuperar a criança e retomar a unidade familiar. Nestas situações, o sinal e contrassinal aparecem juntos, como sucede com a “medida” de santo (fita larga com o comprimento da imagem do santo) que ilustra a exposição. “Temos duas partes, o que significa que o pai veio reclamar a criança um ano depois”, explica o técnico superior de arquivo.

A exposição interpela os visitantes e motiva muitos a procurar as suas origens desconhecidas. Não é por acaso que “esta é a documentação mais requisitada por investigadores e famílias, quando não tenho raízes preciso de as procurar”, confirma o diretor do arquivo histórico, revelando que, entre os visitantes da exposição, apareceram descendentes de expostos.

Ana Jorge, antiga provedora da Santa Casa, é um dos exemplos mais paradigmáticos. Descende de Tertuliana, nascida e entregue na roda a 15 de novembro de 1869, e mais de um século depois assume a direção da instituição que acolheu a bisavó, encerrando um ciclo virtuoso.

Nenhuma destas descobertas teria sido possível sem “o trabalho de anos assegurado por uma equipa extraordinária”, garante Francisco d’Orey Manoel, recuando a 2015, início de um processo, moroso e silencioso, de descrição, digitalização e restauro dos 90 mil sinais.

Analisar estes documentos, através das histórias que lhes dão vida, é dar protagonismo a figuras invisíveis na sociedade e conhecer o contexto social e político em que se inseriram. Mas é também falar da evolução da assistência a crianças e jovens em Portugal, desde a criação da roda à reforma de 1870. “Hoje o acolhimento e apoio à infância continuam a fazer parte da identidade da Misericórdia, mas com outro enquadramento jurídico e numa lógica de acolhimento familiar”, conclui a equipa.

Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas