A Misericórdia de Peniche celebra 400 anos dando a conhecer um tesouro artístico que pertence à memória coletiva da cidade e do país

A Santa Casa da Misericórdia de Peniche assinala este ano quatro séculos de vida. A história da instituição, fundada em 1626, confunde-se com a elevação de Peniche a vila e sede de concelho, estatuto alcançado em 1609.

A efeméride, celebrada no passado dia 31 de maio, teve honras de uma eucaristia de ação de graças na igreja da Misericórdia - presidida por D. Manuel Clemente - e serviu de pretexto para revisitar a riqueza patrimonial do edifício seiscentista. Além da comunidade que aderiu em peso, diversas entidades marcaram presença neste aniversário, entre elas a União das Misericórdias Portuguesas, representada pelo vice-presidente Carlos Andrade.

A igreja, de nave única e exemplar de arquitetura maneirista de fachada pombalina, é guardiã de um património artístico singular que a Misericórdia e a Câmara Municipal, presidida por Filipe Sales, convidam a descobrir.

A Irmandade abriu as portas do templo, cuja numeração de 1793 nos remete para o restauro do imóvel de interesse público, nascido nas traseiras do antigo hospital. Deu também a conhecer as origens deste espólio aos participantes nas comemorações.

João Paulo Ribeiro, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Peniche, destaca ao VM os “55 caixotões pintados no teto e subcoro” que ilustram episódios do Antigo Testamento, Livro dos Atos, os Passos da Paixão de Cristo ou Novo Testamento, a “maioria pagos por donativos dos irmãos”, assinala.

Neste museu de pintura do século XVII, antes de entregar a visita ao presidente da Mesa da Assembleia Geral (MAG), Francisco Salvador, o provedor elege a obra de Baltazar Gomes Figueira e “cinco quadros de Josefa D´Óbidos”, sua filha, assim como um “raro retábulo medieval que permaneceu oculto durante séculos”, recorda.

O Cristo suavizado de Josefa D’Óbidos

Diante de paredes pinceladas de azulejo de padrão seiscentista e a meio dos seis degraus que separam o corpo da igreja do altar-mor, Francisco Salvador proporcionou uma verdadeira aula de história de arte. Ao analisar a monumentalidade artística guardada no templo, o historiador compara o teto “a uma banda desenhada”, pintado por “pintores regionais” cujos nomes, na maioria, se desconhecem. Embora não tenham uma “qualidade extraordinária”, constituem um “conjunto precioso”, sublinha.

A galeria, sita no piso superior da igreja, guarda cinco quadros de Josefa D’Óbidos, executados para a Misericórdia da cidade que hoje é a capital da onda. Francisco Salvador destaca dois. “A cena da visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, sua prima, traduz o espírito da padroeira das Santas Casas” e o Calvário.

Outrora “colocado na sala de despacho”, o Calvário “é um quadro único” no acervo de Josefa D’Óbidos e está muito bem documentado. “Há a encomenda do provedor e o recibo pago à pintora”, descreve.

O historiador revela ainda outra curiosidade. Convidada, por duas vezes, só ao terceiro desafio a pintora anuiu a pintar.

“É um quadro completamente feminino”, afirma, um traço que não causa surpresa a quem conhece a representação da sensibilidade estética feminina, característica marcante em Josefa D’Óbidos.

“Jesus Cristo aparece num corpo sem músculos, as mãos parecem de uma bailarina, tem ancas, abdómen feminino, só não tem peito e tem cabeça de homem. É um Cristo muito atual, no bom sentido. Porque independentemente de ser homem ou mulher, Cristo é uma figura universal, está acima de tudo”, afirmou com um sorriso.

Do acervo existente na igreja da Misericórdia, onde consta ainda uma exposição permanente de arte sacra, com peças de mobiliário antigo e alfaias litúrgicas raras pertencentes à Irmandade, o presidente da MAG e historiador destaca ainda o retábulo flamengo, de 1450, peça anterior ao estabelecimento da instituição.

“Deu à costa de Peniche” e após a extinção das ordens religiosas foi entregue à Misericórdia, que o guardou “tão preciosamente”, que só foi redescoberto “em 1983, por mero acaso”, conta.

Património ao serviço das pessoas

A Misericórdia desenvolve respostas sociais de serviço de apoio domiciliário, estrutura residencial para pessoas idosas e cantina social”, explicou João Paulo Ribeiro, provedor da Santa Casa de Peniche. “Na área da educação, temos a creche e pré-escolar”, acrescentou ao VM.

Ao todo, os serviços da instituição abrangem “cerca de 300 utentes” e são assegurados “por 112 funcionários”, enumerou.

Bancário de profissão, irmão da Misericórdia há uma década e a cumprir o primeiro mandato, João Paulo Ribeiro, 62 anos, considera ter “uma história pequena” quando comparada com a dos seus antecessores.

Para o futuro, espera “consolidar o património da instituição”, em especial o imobiliário para rentabilizá-lo e criar condições que permitam “potenciar a Misericórdia para futuras valências”, antecipa.

Entre as possibilidades, surgem “residências sociais e parcerias público-privadas”, algo que “será ponderado, de forma a conseguirmos dar cobro às necessidades, quer de Peniche, quer do país”, refere.

O provedor aponta ainda a necessidade de reconfigurar o espaço do antigo hospital, “usado pela valência da infância”, avança.

“Há espaços devolutos e outros que podem ser convertidos, em sala de conferências ou museu”, exemplifica. “O nosso património artístico está concentrado na igreja, mas poderia estar exposto para ser, eventualmente, visitado e esse é um dos nossos grandes propósitos”, concluiu.

Voz das Misericórdias, Miguel Morgado