Misericórdia de Vila do Conde inaugurou o Centro Interpretativo de Memórias para ‘perpetuar a memória daqueles que nos honraram’.

Memória e recordações. As palavras foram repetidamente pronunciadas nos discursos que marcaram a inauguração do Centro Interpretativo de Memórias da Misericórdia de Vila do Conde (CIMMVC). A cerimónia aconteceu no passado dia 13 de julho e contou com a presença de distintas personalidades.

“Um povo, um país, uma comunidade que não tem memórias não tem futuro”, disse Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP). “A vida compreende-se olhando para trás, mas vive-se olhando para o futuro” continuava D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Primaz das Hespanhas. 

E o tema merecia, novamente, expressão nas palavras do provedor Arlindo Maia ao acentuar que “a memória se constrói de momentos vividos, com o CIMMVC podemos perpetuar a memória daqueles que nos honraram”. 

Com mais de cinco séculos de história, a Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde tem um vasto património sociocultural e assistencial que, com a abertura das portas do recém-inaugurado espaço, é dado a conhecer aos visitantes.

Cofinanciado pelo Programa Operacional da Região Norte: ON.2, o CIMMVC tem duas linhas orientadoras: uma mais tradicional, cujo objetivo assenta na exposição do espólio, preservação e divulgação do acervo documental e das obras sociais da instituição. Outra mais vanguardista, com recurso à utilização das novas tecnologias, conferindo mais riqueza à narrativa histórica e promovendo diferentes registos de interação com o público. 

“Beneméritos: 500 Anos de Caridade” é a exposição que inaugura o espaço e que faz jus à intenção de perpetuar a memória de todos quantos passaram pela Misericórdia vila-condense. Nas palavras do provedor Arlindo Maia, a visita da comunidade “é um estímulo e reconhecimento de que a obra é uma mais-valia para a cidade e para o país”. 

Sublinhando a importância de preservar um legado com mais de 500 anos, o provedor acrescentou ainda que “também a gratidão se deve perpetuar, para que as gerações vindouras possam reconhecer e valorizar os gestos de tantos que se empenharam para nos deixarem um património que devem honrar e respeitar”. 

“Dar audiência às recordações”. Expressão utilizada por Manuel de Lemos para, também ele, enfatizar a importância de preservar a história das instituições. Para o presidente da UMP, a obra inaugurada é uma forma da Santa Casa dar audiência às recordações de uma casa tão notável como a Misericórdia de Vila do Conde. “Mais do que dar audiência, é também muito importante mostrar e transmitir essas recordações, porque um povo que não tem memórias não tem futuro”, destacou.

Recordando o filósofo Soren Kierkegaard, D. Jorge Ortiga afirmou que se cortarmos com as nossas raízes, dificilmente compreenderemos a vida. Na opinião do arcebispo de Braga e Primaz das Hespanhas, o CIMMVC tem, também, esta finalidade: “obriga-nos a pensar e a olhar para o que foi a instituição. Olhando, somos interpelados a fazer muito mais”. 

D. Jorge Ortiga apelou ainda à visita de todos, com especial destaque para as crianças e jovens. Na opinião deste alto representante da Igreja Católica, a partir da contemplação, será possível “respirar o espírito de misericórdia” que ao longo dos séculos foi suscitando inúmeras iniciativas. Iniciativas em harmonia com as exigências de cada tempo e que se foram alterando e modificando ao longo da história. “Hoje temos outras exigências, outras necessidades. Se outrora as Santas Casas estavam, primordialmente, vocacionadas para a área assistencial, atualmente sabemos que o âmbito é muito mais vasto e complexo”, concluiu.

O Centro Interpretativo de Memórias da Misericórdia de Vila do Conde está aberto de terça a sábado, entre as 14 e as 18 horas. A entrada é gratuita.
O desafio

A Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde tenta, há mais de uma década, constituir uma unidade que dê resposta às pessoas com demência.

Por isso, à margem da cerimónia de inauguração do Centro Interpretativo de Memórias da Misericórdia de Vila do Conde, o provedor Arlindo Maia aproveitou a presença do presidente da UMP, Manuel de Lemos, para o desafiar a levar aos responsáveis do governo a mensagem de que é urgente que seja dada luz verde a um projeto há muito desejado pela instituição. “Aceito”, disse Manuel de Lemos, assumindo que esta é, de facto, uma área que merece atenção especial.

Voz das Misericórdias, Vera Campos