Hoje é um dos grandes valores da seleção nacional de boccia, que sonha com o título de campeã olímpica, agarrada a um outro lema: “Deixar de sonhar nunca”. Exemplo de superação, Ana Sofia Costa nasceu, há 29 anos, no Porto, e aos quatro mudou-se para a freguesia de Maceira, em Leiria. Nessa altura, já lhe tinha sido diagnosticada a doença, mas os pais guardaram segredo. Só mais tarde, já na escola primária, soube a razão de “não conseguir correr como as outras crianças”. Pouco depois da descoberta, acabou por se ver agarrada a uma cadeira de rodas. “Não foi um drama”, conta, reconhecendo que o facto de os colegas “nunca a terem rejeitado” ajudou-a a aceitar a situação. “Brincavam comigo e não me deixavam de lado. Fui mais rejeitada pelos adultos do que pelas crianças.”
A entrada no Centro João Paulo II aconteceu aos 14 anos, num momento em que estava já totalmente dependente de uma terceira pessoa. Sem condições para lhe garantir o apoio de que precisava, a família encontrou na instituição “um quase milagre”, pela rapidez com que o processo se desenrolou, explica Ana Sofia Costa.
É por essa altura que se dá o encontro com o boccia, por intermédio de David Henriques, professor na instituição, que a convidou a experimentar uma modalidade da qual só tinha ouvido falar “nas notícias”, por ocasião dos jogos paralímpicos. Como não é de virar a cara a um bom desafio, aceitou ir a um dos treinos. Experimentou e gostou. De tal forma, que nunca mais deixou de ir, sempre em crescendo.
Os resultados apareceram e não passaram despercebidos aos responsáveis da seleção nacional, que, em 2017, a convidaram para um estágio. “Achava que seria a primeira e a última vez. Por isso, queria aprender ao máximo e aproveitar o momento.” Enganou-se. No ano seguinte, concretizava a primeira internacionalização. Foi num torneio em Itália, onde conquistou a sua primeira medalha - terceiro lugar por equipas - com as cores da seleção portuguesa. Desde então, passou a ser presença assídua na equipa das quinas, com a conquista de várias medalhas e vitórias em provas mundiais. As primeiras foram alcançadas ainda em 2019, nos Jogos Europeus da Juventude, de onde trouxe duas medalhas, uma de ouro (em pares) e uma de prata (individual).
Seguiu-se a participação nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2021. Não subiu ao pódio, mas ganhou experiência competitiva, fundamental para o feito que conseguiu no ano seguinte, quando se sagrou campeã do mundo de boccia. O ano de 2024 foi também marcante. Ganhou duas medalhas de ouro no World Boccia Chalanger e voltou a pisar o palco olímpico, agora em Paris. “Adorei. Em Tóquio, havia a pandemia. Quase não tínhamos adeptos. Em Paris foi totalmente diferente. Sentir aquelas pessoas a chamar por nós, a vibrar e a aplaudir, é indescritível.”
Ana Sofia Costa pensa agora na sua terceira participação olímpica. Espera que seja em Los Angeles, em 2028, e que lhe traga muita felicidade. “O meu sonho é ser campeã paralímpica”, confessa a atleta, que reconhece que o boccia lhe tem dado “muito mais” do que medalhas e títulos, permitindo-lhe evoluir “a nível pessoal”.
Uma caminhada feita com ajuda do treinador David Henriques e das companheiras de competição, primeiro Celina Gameio e agora Maria Vieira, funcionárias do Centro João Paulo II que, em prova, a acompanham “para todo o lado”, dentro e fora de campo. “O boccia é superação de limites, mas também uma aprendizagem para a vida.”
Distinguida por Câmaras de Leiria e Ourém
O mérito de Ana Sofia Costa tem sido reconhecido pelos municípios de Leiria, onde cresceu, e de Ourém, ao qual pertence o Centro João Paulo II, com votos de louvor e outras distinções. A última aconteceu em junho deste ano, ao receber o Prémio de Mérito Desportivo na Gala do Desporto de Leiria. Em 2023, foi agraciada com o galardão ‘Desporto Adaptado’ na Gala do Desporto e da Atividade Física de Ourém.
Colaboração no jornal do Centro João Paulo II
Nem só de boccia se faz o dia a dia de Ana Sofia Costa. Entre treinos e sessões de fisioterapia, colabora no jornal do Centro João Paulo II, o ‘As últimas de sempre’. "Também sou jornalista", diz, com orgulho, contando que é responsável pela rubrica ‘A palavra é nossa’, na qual publica testemunhos de residentes da instituição e textos de temas livres. O jornal ‘As últimas de sempre’ é uma das inúmeras atividades organizadas pelas equipas de animação deste centro da UMP em Fátima.
Voz das Misericórdias, Maria Anabela Silva