A galeria dos benfeitores, no MMIPO, foi o cenário escolhido para a tomada de posse do novo grupo de trabalho para a saúde que irá definir as linhas estratégicas da Santa Casa da Misericórdia do Porto para o horizonte 2026-2030. Sob a coordenação de Manuel Pizarro, a Santa Casa prepara-se para liderar a resposta aos desafios do envelhecimento e da revolução digital.
No passado dia 14 de março, num momento que antecedeu as comemorações dos 527 anos da Misericórdia do Porto, deu-se um passo decisivo para o futuro da instituição. A criação de um grupo de trabalho dedicado à saúde marca o início de uma reflexão profunda, sustentada tecnicamente e livre de tendências, com o objetivo de desenhar o caminho para os próximos cinco anos. A Misericórdia do Porto não quer apenas acompanhar a mudança, quer antecipá-la.
O provedor da Misericórdia do Porto, António Tavares, sublinha ao VM que "os órgãos das instituições necessitam de ter documentos que estejam sustentados do ponto de vista técnico e que não possuam nenhum tipo de tendência”. Para o provedor, o momento é de mudança: "Há uma nova abordagem aos problemas da saúde e a Santa Casa do Porto, como entidade líder no setor social, entende que deve apontar aqui um caminho importante".
A visão estratégica para 2026- 2030 é clara: foco na região norte e na área metropolitana do Porto, consolidando o que já é feito, mas olhando de frente para o envelhecimento populacional. "Ganhámos a guerra da esperança de vida; agora temos de ganhar a guerra da qualidade", afirma António Tavares. Esta "guerra" será travada com “uma articulação reforçada entre a saúde e a ação social, olhando para as famílias e para o papel dos cuidadores”.
O provedor elege ainda a saúde mental e as demências como prioridades absolutas, lembrando o pioneirismo da instituição com o primeiro centro de dia para doentes de Alzheimer. "Somos um autêntico laboratório vivo que queremos que seja bem atualizado."
António Tavares destaca também o papel da tecnologia, prevendo que a inteligência artificial (IA) será um divisor de águas. "A transformação vai ser evidente, desde logo na radiologia(...) a informação vai poder estar nas redes e cada doente será muito bem monitorizado." No num ‘momento de festa para todos’ entanto, o provedor vê na tecnologia um meio para um fim mais humano: "Vamos poupar algum tempo na observação e vamos poder dedicar-nos mais à inteligência emocional."
Ao leme deste novo grupo de trabalho está Manuel Pizarro, que assume a responsabilidade de colocar as suas capacidades ao serviço de uma causa que beneficia milhares de pessoas. Para o coordenador, “o sucesso das políticas passadas” - que permitiu às pessoas viverem mais anos - exige agora uma "articulação engenhosa" entre proteção social e promoção da saúde.
Um dos pontos centrais da estratégia de Pizarro será o regresso a um "modelo holístico", onde a barreira entre o cuidado clínico e o apoio social desaparece. "Estará porventura aí a resposta a alguns dos desafios, designadamente o desafio de dar uma resposta mais eficaz e mais justa à questão do envelhecimento", explica.
Determinante será também a incorporação da inteligência artificial e de novas tecnologias. No entanto, o ex-ministro da Saúde garante que o ADN da Misericórdia servirá de escudo contra a desumanização: "A incorporação da inteligência artificial deve ser feita com radical humanidade, retirando benefícios sem desumanizar as relações entre profissionais e doentes".
O objetivo é que a tecnologia liberte os profissionais para o que fazem melhor: o humanismo. "Queremos estar na vanguarda, como estivemos na construção do Hospital de Santo António ou do Conde Ferreira", aponta Manuel Pizarro.
A estratégia 2026-2030 prevê ainda uma colaboração estreita com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Manuel Pizarro vê a Misericórdia do Porto como um parceiro essencial para a "retenção e atração de talento", onde “a investigação científica pode trabalhar sobre casos concretos”.
Voz das Misericórdias, Paulo Sérgio Gonçalves