- Início /
- União /
- Notícias /
- Centro de Apoio a Deficientes Santo Estevão | ‘Não tenhas medo, estou aqui’
A gestão diária deste equipamento envolve disponibilidade, rigor e compromisso de todos os que abraçam este desafio. “São todos importantes, desde a cozinha e lavandaria aos que cuidam dos nossos utentes e é desta conjugação de olhares que conseguimos melhorar todos os dias”, revela a administradora. Em funções desde 2013, considera que “entrar neste mundo é começar tudo de novo, refletir sobre o próprio valor da vida”.
Marta Albuquerque, diretora técnica, encara esta experiência como “algo transformador que dá ferramentas para a vida”. O primeiro contacto com esta realidade foi “impactante”, mas, depois de ultrapassada a estranheza inicial, conseguiu mergulhar a fundo “nas histórias por trás dos rostos”. Os que nasceram assim e os que sofreram uma rutura completa na vida que conheciam, devido a acidentes ou AVC, e “têm de fazer o luto da pessoa que eram”.
Algumas histórias, como a de Teresa, surpreendem pela lucidez e coragem. Sofreu um AVC aos 18 anos e decidiu mudar-se para o Centro Santo Estêvão, em 2007, para não sobrecarregar os pais idosos. “Sempre a vi com uma força incrível e transmitia isso aos outros”, partilha Marta Albuquerque, lamentando o agravamento do seu estado de saúde nos últimos anos.
Igualmente impactante é o amor entre pais e filhos, que resiste a todas as adversidades. Ricardo chegou ao centro em 2024, após um longo percurso em busca de respostas na comunidade. Maria de Fátima Costa Alemão, 65 anos, recorda que o diagnóstico de autismo chegou na infância, sem grandes certezas. “Eu fui a primeira a saber que havia algo diferente, mas o pediatra dizia que era a ansiedade de mãe de primeiro filho”. Só mais tarde, numa segunda avaliação, em Lisboa, se descobriu o motivo. A determinada altura disseram-lhe: “Não interessa o rótulo”. Lembra, contudo, como era penalizador “não ter um diagnóstico para acabar com conversas desconfortáveis sobre a diferença evidente”.
Entre escolas de ensino regular, de ensino especial e ocupação de tempos livres numa CERCI - Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas, Ricardo tornou-se adulto e regressou a casa, passando os seus cuidados a ser assumidos em exclusivo pelos pais. “Abdicámos da nossa vida como cidadãos normais e fomos gerindo da melhor forma os dois. Mas fomo-nos afastando das outras pessoas para nos proteger e ter o mínimo de descanso”.
Após anos a aguardar vaga numa estrutura residencial, sem férias ou noites de descanso, chegou o telefonema há muito aguardado. “Se me perguntar, eu queria viver até ao fim com o meu filho. Mas chega uma altura em que temos de entregar os nossos filhos, mesmo que o coração não queira”, confessa. Apesar da apreensão inicial, Maria de Fátima reconhece que o “último ano foi uma bênção” e mostra-se “muito grata por tratarem dele de forma tão digna e humana, respeitando sempre a sua forma de ser”.
No momento em que deixamos de olhar para a diferença, o amor prevalece. Ou, como diz Infância Pamplona, “sobrepõe-se a necessidade de cuidar”. Essa visão é transversal a toda a equipa e tem sido difundida junto de entidades parceiras e comunidade. “Hoje todos nos conhecem e funcionamos como centro de estágios em várias áreas”. Margarida Mateus e Vanessa Matos, estudantes de educação social, escolheram o equipamento com o intuito de “desafiar os seus limites e capacidades” e não se arrependeram da decisão. Pelo contrário, equacionam “continuar a trabalhar nesta área no futuro”.
Acompanhamo-las numa aula de natação adaptada, promovida no âmbito de parceria com a autarquia, com um grupo de utentes mais autónomos. “Vamos fazer uns jogos lúdicos para eles aprenderem a nadar”, explica Ricardo Costa, treinador no Pavilhão Desportivo do Fontelo. A psicomotricista Eurica Figueiredo é uma das que mergulha com Pedro, Isabel, José e Lucília. Atenta aos sinais do grupo, dirige palavras de conforto a Isabel: “Não tenhas medo, estou aqui”.
No centro, as rotinas estão alteradas com as obras de requalificação financiadas pelo PARES 2.0, que obrigaram à transferência de utentes entre setores e à reinvenção de espaços e atividades. No próximo verão, o equilíbrio retoma em instalações renovadas.
Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas
Fotografia, Duarte Ferreira e Ricardo Bota