O Centro Luís da Silva, em Borba, é um refúgio de calma na planície alentejana. É o terceiro equipamento da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), dedicado à deficiência, a funcionar desde 2013 numa herdade doada pelo benemérito Luís da Silva. E a morada de 72 pessoas, vindas de todo o país, que encontram aqui um espaço de inclusão e vida em família. Paulo, atleta medalhado, Márcio, anfitrião, Patrícia, retratista talentosa, Bia, tecedeira de mantas, JP, pensador melancólico, e Joana, de sorriso doce, entre muitos outros.
A casa organiza-se em três módulos (cinza, violeta e laranja), em função da autonomia e cognição, com atividades propostas pela equipa e utentes. Aqui os dias são oportunidades de cada um se reinventar e expressar a sua identidade. Exemplo disso são dois projetos recentes, que vieram dar mais alegria às rotinas do centro: a rádio ‘Luisinhos FM’, dinamizada pelos utentes Márcio e Vítor, e o Bar dos Luisinhos, espaço de convívio e partilha de tarefas.
A diretora técnica Tânia Andrade enquadra estas iniciativas numa intervenção multidisciplinar que, além do conforto, bem-estar e reabilitação, visa “promover novas experiências, num contexto diferente, com interação direta dos colaboradores”. Neste caso concreto, as duas iniciativas surgiram numa “reunião semanal de autorrepresentantes, com os utentes cognitivamente mais autónomos, visando a autonomia e partilha de experiências de vida, sendo mais uma forma de dar voz, fortalecer vínculos e celebrar cada conquista”.
Igualmente apreciados são os treinos de boccia, que ocupam as manhãs de um grupo restrito de utentes: Paulo, Márcio, Vítor e João Paulo. Com a orientação da psicomotricista Ana Figueira, estes jogos conjugam destreza, coordenação, raciocínio estratégico e socialização. “O desporto trabalha várias competências e, no caso deles, há objetivos de vida associados, além de lhes permitir que se ajudem e se superem, sendo por isso muito completo”, defende.
Paulo Cardoso, 23 anos, estreou- -se há dez anos no desporto escolar, em Borba, e hoje é atleta federado, com mais de 70 medalhas. Embora seja o mais premiado, admite que é “o mais preguiçoso” (risos). Mas a evolução do seu desempenho denota o esforço feito para melhorar a alimentação e tónus muscular, contrariando a progressão de uma distrofia muscular genética. Com menos experiência, mas igualmente motivado, Márcio Cunha, 27 anos, é campeão regional e “tem uma grande amizade por Paulo”, com quem gosta de jogar, “mesmo que às vezes acabe mal” (risos). Nos torneios regionais, jogam em dupla, beneficiando do “convívio fora de portas e oportunidade de conhecer outras realidades”, destaca a técnica.
Superar as limitações do corpo, dentro e fora de campo, é um desafio diário. Nem sempre foi assim, mas hoje o “Paulo maduro aceita e segue em frente”. Vítor, de 52 anos, “vive um dia de cada vez, pensando em coisas melhores”. Por sua vez, João Paulo (JP) aprendeu a “manter a calma e refletir antes de agir”, redefinindo objetivos de vida, longe do navio de cruzeiros onde trabalhava, após um acidente.
Com diferentes dinâmicas, o centro de atividades ocupacionais e inclusão (CACI) promove ateliês de expressão plástica, costura, culinária e saídas ao exterior. Neste espaço, a animadora Teresa Espanhol mostra-nos árvores de natal em cortiça, mantas de retalhos e outras obras que serão expostas em mercados ou na sala de visitas do centro. “Aceitamos encomendas”, diz-nos enquanto apresenta os autores das peças. Na sala multissensorial, em frente, os utentes mais dependentes experienciam “estímulos controlados, que proporcionam conforto e relaxamento, através de cores, sons e texturas”, explica a psicóloga Margarida Horta.
Mesmo sem a palavra falada, a comunicação flui em gestos e olhares só decifrados pelas cuidadoras. Elas são a “base desta intervenção, só pelo olhar sabem quando algo não está bem”, explica a diretora técnica, Tânia Andrade. A equipa de enfermagem, constituída por Sónia Boleta e Carla Borla, corrobora: “São os nossos olhos”.
Em diferentes momentos, a equipa lembra que, apesar das patologias associadas, as pessoas com deficiência “não são doentes, têm limitações e doenças, como nós”. Para Tânia Andrade, “ver além da deficiência significa olhar para eles como pessoas”, colocando a necessidade de adaptação do nosso lado, como enfatiza também a socióloga e coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, Paula Campos Pinto (ver entrevista). Na interação com a comunidade constatam uma evolução positiva na perceção da deficiência, mas admitem que o caminho, na desconstrução de preconceitos e acessibilidades, tem de se fazer todos os dias.
5 perguntas a Paula Campos Pinto
Docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos (ODDH)
O relatório de 2024 do ODDH revelou que o risco de pobreza e exclusão é maior para pessoas com deficiência e suas famílias. O que revela este indicador?
Reflete a inserção no mercado de trabalho e a intensidade laboral, que é mais reduzida. E isso acontece porque há insuficiência de recursos na comunidade, que leva a que sejam as famílias a assumir essas responsabilidades.
Como estamos ao nível do acesso à educação?
A nossa legislação é uma referência a nível internacional, mas a prática deixa a desejar. É comum o ano escolar das crianças com deficiência começar no final de outubro porque as escolas aguardam a atribuição de apoios aos assistentes e professores com especialização.
Como avalia as respostas sociais disponíveis na comunidade?
Fizemos uma transformação do CAO para um modelo mais inclusivo (CACI), que acaba por ser a única resposta para muitas famílias. O programa de apoio à vida independente está estagnado e nas respostas residenciais preconizam-se estruturas mais pequenas.
Como tem evoluído a perceção da deficiência pela sociedade?
Hoje a deficiência não é uma coisa que gostamos de evitar, curar ou eliminar. É algo que faz parte da diversidade humana.
De que formas as políticas públicas se têm ajustado para acolher esta diferença?
As políticas sociais ainda são débeis e as respostas sociais insuficientes. A verdadeira inclusão implica transformação. Mas estamos melhor e temos políticas mais atentas.
Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas
Fotografia, Duarte Ferreira e Ricardo Bota